— Francisca, aconteceu algo com a Kelly. Ela está no hospital, na emergência. Você... pode vir? Se puder, peço para o Junior Lacerda ir te buscar.
— O que aconteceu com a Kelly? Ela se machucou? É grave? — A notícia de que Kelly estava em apuros me deixou ansiosa e confusa.
Afinal, era a criança que eu amei por seis anos, como se fosse minha própria filha.
Racionalmente, eu havia cortado laços com ela, mas emocionalmente não era tão fácil me desligar completamente.
Podem me chamar de boazinha ou inútil, mas eu simplesmente não conseguia ser tão fria.
— Ela rolou de uma encosta e bateu a cabeça em uma pedra. O ferimento é grande. O médico disse que ela perdeu muito sangue e precisa de uma transfusão e de cirurgia. Quer que eu peça para irem te buscar? Vi que você bebeu um pouco no jantar.
— Não precisa, vou com meus seguranças.
Desliguei o telefone e olhei para o relógio: dez e quinze da noite.
Ultimamente, tantas coisas confusas estavam acontecendo que até mesmo ter uma boa noite de sono era difícil.
Troquei o roupão por um conjunto de roupas confortáveis e práticas e parti com os seguranças em direção ao hospital central.
Corri para a sala de cirurgia de emergência.
Junior Lacerda esperava na porta.
Víctor Laranjeira estava em sua cadeira de rodas, o rosto pálido a ponto de parecer azulado.
Seus olhos tremiam de ansiedade e todo o seu corpo tremia de medo.
Suas mãos agarravam com força os braços da cadeira, as veias saltadas nas costas das mãos, retorcidas e ameaçadoras.
— O que aconteceu? A cuidadora não cumpriu com sua responsabilidade?
As lágrimas de Víctor Laranjeira caíram.
Ele levantou a mão e deu um tapa forte em seu próprio rosto, a dor inundando seus olhos como um oceano.

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