Ao contrário do que eu esperava, ele pigarreou, desconfortável.
Seu olhar desviou por um instante, mas logo se fixou em meu rosto.
Ainda com a expressão fria, ele disse algo que me fez querer fugir.
— A Diretora Francisca me conhece tão bem que percebeu meu ciúme. Pois bem, eu admito. Estou com ciúmes. Então, Diretora Francisca, o que você pretende fazer para aplacar todo esse meu despeito?
Eu engasguei.
Meus dentes morderam meu lábio inferior instintivamente.
Minha garganta se fechou, e as palavras não saíam.
Meus olhos ficaram secos, e até piscar se tornou difícil.
Como eu deveria responder a uma confissão tão direta?
Pensei um pouco e decidi arriscar.
— Uhm, lembro das aulas de química do ensino fundamental sobre neutralização ácido-base. O ciúme é ácido. Se estiver muito desconfortável, que tal o chefe beber um pouco de água alcalina? Claro, se não for conveniente para o senhor sair e comprar, como uma subordinada competente, posso fazer isso pelo senhor. Gratuitamente.
O rosto de Fernando Gomes se transformou.
De seus dentes cerrados, escaparam duas palavras carregadas de gelo e fúria: — Francisca Lobato!
— Ah, alguém está me chamando, não é? Ouvi meu nome. Desculpe, chefe, preciso ver o que é, talvez seja algo importante.
As últimas palavras foram ditas enquanto eu já corria.
Não olhei para trás para ver a expressão de Fernando Gomes.
Pareceu-me ouvir uma risada baixa, mas não soube dizer se era real ou imaginação.
Depois de provocar o grande chefe, perdi o ânimo para continuar na festa.
Encontrei uma desculpa, avisei o anfitrião e saí.
Como havia bebido um pouco, não podia dirigir.
Chamei um carro por um aplicativo e esperei em um canto sombrio perto de uma janela de vidro.
Fernando Gomes também saiu.
Ele parou nos degraus, olhou para o estacionamento e depois na minha direção.

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