Até ouvir o som seco da porta se fechando do outro lado do corredor, soltei lentamente o ar preso nos pulmões. Caminhei em círculos duas vezes ao redor das coisas, e, quanto mais pensava, mais desconfortável me sentia.
De qualquer ponto de vista, eu só tinha feito um pequeno favor. Embora tenha passado por algumas situações complicadas, aceitei ajudar não pelo pagamento ou pela gratidão dele, mas porque queria alguém para passar o Ano Novo comigo.
Peguei o celular e abri a conversa com Fernando Gomes. A última mensagem que enviei ainda estava lá, sozinha, sem resposta.
Não sabia se ele estava realmente ocupado ou se achava que aceitei um valor excessivo pelo que fiz.
Dinheiro não me fazia falta; já tinha o suficiente para várias vidas. Mesmo que ele me desse mais, seria apenas um luxo a mais — não sou gananciosa.
Depois de pensar um pouco, digitei outra mensagem e reenviei todo o valor que ele havia depositado em minha conta.
Dinheiro bem-vindo, mas sempre com dignidade. Não podia aceitar aquela quantia: aceitei antes só pela boa sorte e pelo prazer do momento, nunca foi minha intenção me aproveitar da situação.
Quanto às roupas e acessórios que ele me deu, empurrei tudo para o quarto de hóspedes. Pretendia devolver assim que fosse oportuno, ou, se preferisse, devolver em dinheiro. De qualquer forma, não pegaria nada de graça.
Após comer rapidamente um macarrão simples, saí apressada em direção ao hospital. Sep insistiu em ser meu motorista — não consegui recusar, então aceitei.
Com ele por perto, ao menos estava segura.
Ao empurrar a porta do quarto, encontrei Víctor Laranjeira dormindo em silêncio. Não sabia dizer se havia acabado de adormecer ou se nunca tinha acordado.
Letícia estava sentada na pequena cadeira ao lado da cama, os olhos fixos no rosto de Víctor Laranjeira, segurando sua mão esquerda. Duas lágrimas redondas brilhavam em seus olhos.

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