As ligações e mensagens incessantes de Fernando Gomes pararam meia hora depois que entrei no carro.
Não me preocupei em investigar o motivo. Analisei superficialmente e concluí que ele provavelmente localizou minha posição, viu que eu estava bem e, por isso, parou de insistir.
O táxi parou no aeroporto. Com minha pequena mala, sentei num canto discreto do saguão, onde ninguém me notava, e comecei a procurar passagens para Punta Arenas no celular.
Vi muitas propagandas sobre Punta Arenas. Dizem que lá faz o frio mais intenso do país, tem as paisagens de neve mais lindas e é o lar dos trabalhadores e corajosos Aónikenk.
Eles vivem livres, caçando pelas vastas florestas durante todo o ano, dependendo apenas de um cavalo, uma espingarda e um cão de caça. Sempre sonhei conhecer esse lugar.
Antes de Serena Cruz voltar, eu e Víctor Laranjeira havíamos combinado: visitaríamos Punta Arenas no inverno, para ver de perto como vivem os povos nômades e tentaríamos avistar a aurora boreal.
Mas muita coisa aconteceu depois, e ficou impossível eu e Víctor Laranjeira viajarmos juntos nesta vida. Então, decidi ir sozinha.
O problema era que o voo mais cedo para lá só sairia às quatro da tarde, e ainda passava pouco do meio-dia. Teria que esperar muito.
Um segundo antes de confirmar a compra da passagem, um homem alto sentou ao meu lado, tomou meu celular e fechou a página de pagamento.
Nem precisei olhar para saber: era Fernando Gomes.
Ele me encontrou.
Cidade Capital era o território dele. Para Fernando, me achar era só questão de tempo.
Na verdade, o motivo da minha raiva era só não querer ver gente da família Batista. Desde que saí da casa dos Gomes, cortei qualquer possibilidade de encontrar alguém da família Batista, e aquela angústia no peito foi, aos poucos, se dissipando.
— Não tinha um convidado importante para receber? O que está fazendo aqui? — Cruzei os braços, de cara fechada, tentando parecer altiva e indiferente.
— Por lá agora a temperatura média está por volta de quarenta graus negativos. Não tem medo de passar frio? — ele perguntou.
Fingi não ouvir. Já que não me devolvia o celular, fiquei observando o movimento das pessoas e a paisagem pela janela.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casamento de Mentira, Amor de Verdade