Os pais da família Gomes me observavam discretamente. Quando nossos olhares se encontraram, percebi um lampejo de surpresa em seus olhos.
— Primeira vez que nos vemos, como devo te chamar? Que tal seguir o Fernando e também te chamar de Francisca, pode ser? — A mãe do Fernando segurou minha mão e deu leves tapinhas no dorso, sorrindo. — Olhar transparente, postura firme, é uma boa moça. Esse rapaz tem mesmo bom gosto.
Respondi com um sorriso gentil:
— Pode me chamar de Francisca, Sra. Gomes.
O pai do Fernando tinha traços muito semelhantes aos do filho: a mesma postura imponente, um ar sério e refinado.
— Francisca Lobato é um termo budista, refere-se ao estado de libertação do ciclo da morte e renascimento por meio da prática espiritual, alcançando o nirvana. Costuma ser usado para descrever o rompimento com as ilusões que surgem das distinções. Imagino que seus pais escolheram esse nome por algum motivo especial, não é?
— O senhor é muito culto, Sr. Gomes. Meu pai explicou a origem do meu nome quando eu era pequena: só ao abandonar as amarras do destino e dos laços, é possível se libertar e renascer.
— O pai da Francisca é...
— Meu pai era professor universitário, faleceu há três anos. Minha mãe partiu há alguns meses. Agora, da família Lobato, restou apenas eu.
O pai de Fernando claramente não esperava por essa resposta; ficou visivelmente surpreso.
— Me desculpe por tocar em um assunto tão delicado, Francisca. Fui indelicado.
— Não tem outros familiares? Como assim, está sozinha? — perguntou a mãe do Fernando, puxando-me para sentar ao seu lado.
— Não, desde que nasci, só tive meus pais.
Ao saber que eu não tinha mais ninguém da família, Valéria Gomes ajeitou o xale e comentou com um tom mordaz:

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