No almoço, no restaurante do último andar, Cecí e eu escolhemos um canto discreto, perfeito para conversar.
Assim que os pratos chegaram e estávamos prestes a comer, dois clientes se sentaram em uma mesa de dois lugares, separados de nós apenas por uma grande planta em vaso.
Não estavam longe, mas as folhas impediam uma visão clara; apenas era possível perceber que se tratava de um homem e uma mulher. Pelo ângulo, não dava para distinguir os rostos.
O homem, extremamente cavalheiro, puxou a cadeira para a mulher se sentar. Ela colocou a bolsa à direita do prato, ajeitou o cabelo e, com uma voz delicada, disse:
— Que tal pedirmos novamente aquele peixe ensopado e a salada leve? Comemos da última vez e fiquei com saudade.
— Claro — respondeu o homem, com uma voz que me era bastante familiar —, o que você quiser.
Ambas as vozes me soavam conhecidas.
Cecí e eu trocamos um olhar, surpresas com a coincidência do destino — em qualquer lugar, acabamos encontrando quem menos gostaríamos de ver.
Na época do colégio, José Godoy não trocava sequer uma palavra com Letícia, e agora, em algum momento, acabaram se aproximando.
Dizer que ele não tinha segundas intenções seria ingenuidade.
No mundo dos adultos, tudo se resume à realidade.
— Cecí, o que houve? Você está pálida. Será que o ar-condicionado está muito forte? — perguntei baixinho, enquanto tocava sua testa para ver se ela estava com febre.
Ela balançou a cabeça, forçou um sorriso e respondeu, tentando parecer tranquila:



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