“Dizem por aí que nem tudo o que os olhos veem é real. Eu acho que mesmo aquilo que o coração sente pode não ser verdade. Só o que sobrevive ao teste do tempo é que revela sua essência.”
Não era uma filosofia difícil de entender, mas quem a compreendia, provavelmente já havia se machucado alguma vez.
O carro da Cecí vinha se aproximando à distância. Aproveitei os últimos momentos para brincar com ela:
— Meu Deus, será que é a influência do bonitão de um metro e noventa com abdômen definido? Agora até minha Cecí resolveu filosofar. Vai fundo, estou apostando em você. Quando abrir um curso de palestras, eu invisto cinco mil reais.
Ela riu, fingindo estar brava, e ameaçou:
— Espera só, um dia ainda vou te mostrar quem manda por aqui!
Em seguida, abaixou-se, entrou no carro e partiu.
Cecí se foi. Fiquei sozinho. O mundo pareceu silenciar de repente.
Levantei o rosto para ver os flocos de neve dançando sob a luz dos postes, como pequenos duendes livres, dançando despreocupados.
Era bonito, muito bonito. Mas cada floco estava sozinho, sem ligação com os outros. Um espetáculo solitário.
Assim como eu. No meio de bilhões de pessoas, a maioria passa por mim como esses flocos, e só uns poucos têm algo a ver comigo.
Sob a luz do poste, minha sombra se alongava no chão, perfeita para aquele ditado: sozinho, como uma sombra sem companhia.
O peito apertou, os olhos começaram a arder e a ficar úmidos.
De repente, uma sombra humana apareceu no chão ao meu lado.

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