Júlia não soube ao certo quando adormeceu.
Quando abriu os olhos novamente, o quarto estava escuro e a cama, vazia.
Júlia deu um pulo da cama, sobressaltada.
Com medo de que Sérgio tivesse desmaiado cuspindo sangue novamente ou que algo pior tivesse acontecido.
Ela procurou por ele no quarto principal, no escritório e no banheiro, mas não o encontrou.
Ao abrir as cortinas, viu que, no jardim abaixo, Sérgio e Dora estavam agachados no chão.
Júlia suspirou de alívio e depois balançou a cabeça.
O grande Diretor Santana com certeza não fazia ideia de que, daquele jeito, estava perdendo totalmente a postura e parecendo que iria fazer o número dois no quintal.
— Ué? A mamãe acordou, mamãe!
Dora acenou lá do alto.
Sérgio levantou as sobrancelhas, olhou para trás e sorriu um pouco.
Quando Júlia desceu as escadas, ouviu a filha perguntando com um sorriso no rosto:
— Papai, você gostou de dormir junto com a mamãe ontem?
— Gostei sim.
— E... vocês vão ter um novo bebezinho?
Sérgio respondeu:
— Não. De onde sairia um bebê só porque nos cobrimos com a coberta?
— Mas é assim que mostram na televisão! É só cobrir com a coberta, levantar, e pronto!
Ouvindo pai e filha falando sobre algo cada vez mais absurdo, Júlia interveio rapidamente.
— O que vocês estão aprontando?
Dora estava usando um colete de inverno roxo e estufado, bem soltinho e quente, e, para completar, estava bonita igual a um cogumelozinho.
— O papai disse que ia construir a casinha de coelho pra mim.
— Olha, mamãe, este é o projeto. Tem telhado de palha, o chão vai ser bem quentinho, e ainda entra ventinho fresco.
Júlia abaixou a cabeça para dar uma espiada.
Usando luvas brancas antiestáticas, Sérgio virou o desenho:
— Estava de ponta-cabeça. Tem que ver assim. Esta casinha tem rodinhas. Quando esfriar muito, podemos puxar pra dentro de casa.
Ele explicou tudo entusiasmado, com muito mais empolgação do que teria ao debater qualquer reunião sobre os projetos da empresa.
Júlia assentiu com a cabeça, fingindo que tinha entendido.
Ficou um pouco confuso e perguntou:
— Estrutura? Que estrutura?
Júlia deu um sorriso resignado:
— Dr. Mendes, você ouviu errado. Eles estão falando da estrutura da casinha de coelho.
O Dr. Mendes soltou uma risada:
— Ah, entendi. É que eu não imaginava o Diretor Santana curtindo um momento tão cotidiano.
Com o seu kit médico móvel em mãos, ele comentou seriamente:
— Mas me diga, se ele tivesse despertado para a vida antes, não teria precisado dar entrada no hospital, certo?
Júlia perguntou sobre o quadro de Sérgio.
O Dr. Mendes então suspirou:
— Puxa, já está chegando a Véspera de Natal. Que tal deixar o Diretor Santana aproveitar a data com tranquilidade?
A ideia do médico era que, já que sabiam que não se tratava de uma doença terminal, seria melhor fazer o tratamento com calma depois do Ano Novo.
Mas para Júlia, aquilo soou como 'a última refeição de um homem condenado'.
Atônita, a xícara escorregou da sua mão, caindo no chão e estilhaçando-se.

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