Dois dias depois, Sérgio foi ao hospital retirar os resultados dos exames.
Como o Dr. Mendes previu, a condição de Sérgio era, de fato, um erro médico.
Sérgio finalmente se lembrou das persistentes ligações daquele número fixo.
— Não é de admirar.
O Dr. Mendes explicou: — Aqui estão a tomografia abdominal com contraste, a endoscopia detalhada e a biópsia. Não vou te sobrecarregar com terminologia médica; de forma simples, você tem Gastrite Autoimune.
— E para completar, no dia do diagnóstico você estava internado por causa do acidente e com hemorragia estomacal. Era fácil ocorrer um erro no diagnóstico.
— Essa condição causa sangramentos estomacais, anemia crônica e dores abdominais constantes, mas o prognóstico é muito bom.
— Você precisará voltar ao hospital semanalmente para fazer retornos. No momento, a situação está sob controle.
Diante daquilo, Sérgio soltou um longo suspiro de alívio.
Apesar de ter sido um diagnóstico errado, a experiência foi como bater na porta da morte e voltar.
Naquele momento, o principal sentimento era a gratidão.
Porém, ao mesmo tempo, Sérgio estava preocupado.
Se contasse a verdade a Júlia, será que ela se viraria e sairia da mansão, afastando-se dele?
Na mansão, Júlia deu um espirro sutil.
— Ai!
Dora se assustou com o som.
E a boneca escorregou das suas mãos e desceu escada abaixo.
— Mamãe, minha boneca caiu no porão.
Havia um portãozinho de ferro no início da escada.
Semelhante a um cercado para cachorros.
A boneca havia passado pelas grades do portão.
Júlia tentou sacudi-lo e notou que ainda estava trancado.
Sorte que o portão chegava apenas na altura da coxa de um adulto.
Ela desceu direto por ali.
À medida que avançava, um forte odor de mofo se intensificava.
Misturado à poeira, causando um cheiro sufocante.
A saia e as pernas da boneca haviam ficado presas no espaço abaixo de uma porta.
Júlia tentou puxá-la.
A porta se abriu de repente, com um rangido arrastado.
Hesitou por um segundo, espiando pela fresta.
Notou que não se tratava de um simples depósito.
Mas sim de um quarto.
Diferente dos móveis de nogueira no andar de cima, a cama e o guarda-roupa ali eram montados em madeira maciça com as cores preto, branco e cinza.
A cama também parecia menor que a de um adulto.
Se assemelhando a um quarto de criança.
Porém, comparado a qualquer cômodo que Dora já teve, aquele era muito mais rústico.
Uma escrivaninha, uma cama e um pequeno guarda-roupa. Não havia nem caixas de brinquedos ou estantes de livros.
A escassez de móveis deixava o ambiente extremamente vazio.
Chegava a ser assustadoramente grande!
A única luz entrava por uma janela próxima ao teto, que não passava do tamanho de uma tela de computador.
Do lado de fora da janela havia barras de aço inoxidável.
O corpo de Júlia se arrepiou.
De repente, a imagem de Sérgio, no dia anterior, afirmando que a mansão não possuía quarto infantil surgiu em sua mente.
Seria aquele o antigo quarto de Sérgio na infância?
Júlia cobriu a boca delicadamente.
Naquele instante, um turbilhão de emoções fortes borbulhou dentro dela, como fúria e angústia.
Não por causa de quem Sérgio era agora.
Mas por conseguir enxergar, em meio àquela poeira imensa, uma criança abandonada.
Dona Eunice havia mencionado que os pais de Sérgio pregavam a educação de elite e eram incrivelmente duros com ele.
E que ele chegava a passar fome.
Pena que Júlia e Sérgio logo se divorciaram.
A secretária Diná disse: — O Diretor Santana encomendou os móveis infantis e me ordenou pessoalmente que supervisionasse tudo.
— Veja, a cama tem o tamanho das crianças e também tem um coelho decorativo. A marca pagou por direitos de imagem exclusivos para a Disney; é o único no mundo inteiro.
— Temos também esta penteadeira, trabalhada cautelosamente com as extremidades ovais para preservar os acessórios de pérolas, além do trevo de quatro folhas da senhorita Dora.
— E...
Júlia ouvia as instruções minuciosas da secretária Diná e, em seguida, as emoções em relação à frieza e tristeza do porão ficavam ainda piores.
— Senhora? Senhora?
A secretária Diná perguntou, preocupada: — Haverá também um piano. O Diretor Santana me garantiu que, se vocês não ficarem satisfeitas, ele pedirá para alterarmos, independentemente das dificuldades.
Júlia recuperou o fôlego.
Sorrindo fracamente: — Não precisa. Eu fiquei super grata por isso. Muito obrigada.
A secretária Diná ficou um tempo na casa ao lado de Júlia.
Aproveitou para limpar a geladeira, acrescentando ali todos os itens que haviam recém-comprado enquanto esperava pela entrega do piano.
Na parte da tarde, a luz do sol pairava pela lateral da janela da casa.
Sérgio cruzou a sombra e entrou pela porta.
Nas mãos carregava uma caixa de flanela, pesada demais.
— É o papai!
Dora, comendo um morango, pulou na coxa do pai.
— Papai, o que tem aí com você?
Júlia desviou o olhar para tentar observar também.
Porém, viu que Sérgio recuou e se escondeu rapidamente.
Quando a filha saltava para a esquerda, ele inclinava a mão para a direita. No instante em que ela alcançava, a caixa balançava cada vez mais alto.
No fim, Sérgio cedeu intencionalmente para deixar a filha encontrar o que procurava e abriu um pouco do fundo.
— Ah! É um coelho!
— Mamãe, olha isso! Um coelho vivo! Um é preto e o outro branco, tipo o biscoito Oreo!
— Papai, isso é para mim?

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