Sérgio olhava com pena para a luz que saía pela fresta da porta.
Ele cobria o estômago com uma das mãos, que latejava de dor.
— Eu não comi nada hoje, meu estômago está doendo tanto que estou quase desmaiando.
— Que pena que o Diretor Santana não entrou para a indústria do entretenimento. O aquecedor de piso quebrou, não tem ar condicionado, está com dor de estômago. Você tem tantas desculpas, qual eu devo acreditar?
Sérgio foi atingido em cheio por aquele tom de repulsa e zombaria, e seu rosto mudou de expressão.
Júlia virou o rosto: — Vá embora, se esse apartamento não dá para morar, volte para a velha mansão da família, ou vá para a cobertura perto da empresa.
Com um estrondo.
A porta se fechou violentamente, trazendo uma rajada de vento.
Sérgio se apoiou com uma das mãos na porta de metal luxuosa, e como a palma estava molhada de suor frio, deixou marcadas as cinco pontas dos dedos.
Seu estômago estava doendo de verdade.
Doía mais do que quando ele subiu, a ponto de não conseguir ficar com as costas eretas.
Sérgio jurava que só queria agachar-se um pouco para descansar.
Mas não esperava que, ao fechar os olhos, fosse quase desmaiar.
Sérgio não sabia por quanto tempo havia dormido, a ponto de sua cabeça latejar e até seu nariz estar entupido.
— Mamãe, por que a porta não está abrindo?
Dora, depois de terminar de ver o filme, não se esqueceu de juntar os lanches que tinha comido e deixar na entrada.
Mas a porta de hoje parecia feita de ouro, tão pesada que não cedia.
— Ui, está muito pesada!
Júlia se aproximou e empurrou junto com a filha.
E acabaram deparando com o braço caído de alguém.
— Ahhhhhh, mamãe, tem um fantasma!
Júlia também se assustou a princípio.
Mas logo o reconheceu pelo relógio no pulso de Sérgio.
— Sérgio?
Júlia abriu a porta com força.
Viu Sérgio recostado ao lado da sapateira. Ao ouvir o barulho, ele estreitou os olhos, parecendo um pouco desconfortável.
— Acorda, você está com febre.
— Hum.
Sérgio respondeu com displicência.
Dessa vez até mesmo Dora percebeu que a voz dele não estava normal.
— Eu não vou para o hospital.
Júlia usava um suéter macio, com o longo cabelo trançado de maneira simples, pendurado num dos ombros.
Parecia muito doce e suave.
Aquela aparência caseira fez Sérgio olhá-la fixamente por alguns segundos.
— O Dr. Mendes, chame-o para vir até aqui.
Quando o Dr. Mendes chegou, Sérgio já havia tomado um analgésico.
Ele estava encolhido como uma bolinha no sofá.
E mesmo assim parecia bastante constrangido.
Igualzinho a um Golden Retriever gigante perdido num ninho de Chihuahuas.
— Senhora, a doença do Diretor Santana não é leve.
Júlia não aguentou e disse: — Para mim a doença dele não é leve, ele parece possuído.
O Dr. Mendes pareceu hesitar.
— Para falar a verdade, depois daquele acidente de carro, o estômago e os intestinos do Diretor Santana nunca se curaram por completo.
— A senhora deveria cuidar bem dele.
— Afinal de contas, ele... teve aquela hemorragia gástrica por sua causa.

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