Sérgio não pôde evitar sussurrar um resmungo para si mesmo.
Júlia não conseguiu ouvir direito.
Ao dividir o mesmo ambiente com Sérgio, ela se sentia extremamente tensa.
— Eu levo você.
— Não precisa, eu vim dirigindo.
Júlia prendeu o cinto de segurança da filha e fechou a porta do carro.
— Mamãe, quero comer os seus biscoitos.
— Tudo bem, farei quando chegarmos em casa.
Ao girar o volante, Júlia viu a silhueta no retrovisor ficar cada vez menor e, finalmente, abriu um sorriso.
No entanto, esse alívio não durou muitos dias, logo foi quebrado por Sérgio mais uma vez.
No inverno, a Cidade N costuma ser varrida por ventos fortes.
Como nos dias de frio não dava para sair, Júlia ficava em casa com a filha, assistindo a filmes de animação.
A campainha da porta tocou.
Júlia pensou que fosse o entregador de frutas, mas não esperava dar de cara com Sérgio.
Seus nervos estavam tão retesados como a corda de um arco.
Cada vez que Sérgio se aproximava, a corda vibrava.
Sem dar muita bandeira, Júlia encostou a porta, diminuindo a abertura.
— O que você faz aqui?
Sérgio: — Acabei de me mudar para o apartamento de baixo e vim te avisar.
— Eu comprei este apartamento três anos atrás, mas não tive oportunidade de morar aqui.
— Fique tranquila, eu sei que você não gosta de ser incomodada, então de agora em diante avisarei sempre antes de aparecer.
Com Sérgio agindo de forma tão respeitosa e cautelosa, Júlia nem sabia como reagir.
Júlia voltou para a sala, mas não teve coragem de dizer à Dora que era o Sérgio quem estivera lá.
O desenho ainda passava, porém ela não conseguiu focar em nada da história.
— Mamãe... tá doendo.
— Hum?
Com a carinha franzida, Dora repetiu: — Mamãe, você está me abraçando forte demais, tá doendo.
Júlia finalmente despertou.
Percebeu que, de fato, os próprios braços se contraíram instintivamente.
E logo depois apontou para o celular de Júlia.
— É o papai te ligando.
Sérgio havia acabado de dizer que não a incomodaria, e agora precisava pedir socorro.
A luz desligada do corredor acendeu assim que a porta se abriu.
— O que foi de novo?
Sérgio pigarreou.
— Peço perdão. Não tinha gente morando ali há anos, então não percebi que o aquecimento do piso estava quebrado. E além dos móveis, os condicionadores de ar só serão entregues amanhã.
— E daí?
— Daí... será que você poderia me deixar passar a noite? Fico na sala, no quarto de hóspedes, qualquer lugar.
Sérgio sussurrou: — E eu já me acostumei a dormir com a Dora, agora que estamos separados, estou sentindo a diferença.
Júlia jamais daria bronca na frente de uma criança.
E assim, deu uns tapinhas nas costas de Dora e a empurrou de volta ao quarto.
Somente quando a garota estava fora de alcance, lançou um olhar glacial a Sérgio.
— Você é rico, e eu não posso dar pitacos sobre onde você compra imóveis. Mas por enquanto o Acordo de Custódia nem tem validade, você não tem direito de visitas.

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