Narciso foi enxotado por Alícia de volta ao set de filmagens, enquanto ela seguia sua rotina de trabalho meticulosa.
O fato de ela e Kylen terem seguido caminhos opostos não significava cortar os laços de afeto com Lívia. Independentemente do ponto a que chegasse sua desavença com Kylen, Lívia sempre seria sua avó.
Calculando que os resultados dos exames de Lívia já deveriam estar prontos, ela ligou para Julian.
— Os resultados da vovó não mostram problema algum, exceto aquelas taxas que costumam subir ou descer em idosos — informou Julian.
Alícia insistiu, buscando confirmação:
— Tem certeza de que não ficou faltando nenhum exame?
Ela sentia uma inquietação no peito, os sintomas da avó eram muito parecidos com os que ela mesma tivera.
Julian, desconhecendo as preocupações ocultas de Alícia, interpretou aquilo apenas como zelo pela saúde de Lívia.
— Com a idade, o metabolismo não é mais o mesmo de um jovem. Pequenos problemas são inevitáveis.
Alícia pensou consigo mesma: será que ela estava imaginando coisas? Talvez estivesse.
Desde o aborto retido e a indução do parto, ela ficara um tanto obsessiva. Se não fosse assim, não precisaria recorrer a soníferos vez ou outra para conseguir dormir.
Justo antes de desligar, Julian pareceu hesitar do outro lado da linha.
— O Kylen se machucou.
A mão de Alícia apertou o celular com força, mas sua voz soou indiferente:
— Ele não tem a Yolanda?
Após dizer isso, Alícia encerrou a chamada.
Já haviam se passado três dias desde o incidente daquela noite.
Depois de desligar, Alícia foi ao banheiro, lavou o rosto com água fria e encarou seu reflexo inexpressivo no espelho. Com os dedos, forçou os cantos da boca para cima, num sorriso rígido e artificial.
Em seguida, retornou à sua estação de trabalho para preparar o roteiro da entrevista do dia seguinte.
A pauta era sobre as medidas tomadas pelo Grupo Financeiro Lourenço após a explosão na fábrica do subúrbio, os subsídios aos moradores do entorno e o novo planejamento de segurança contra incêndios.
— Vai beber o quê?
Assim que Alícia se sentou, Yolanda perguntou e chamou o garçom.
— Um café com leite, por favor — pediu Alícia ao atendente.
Yolanda sorriu, com um tom de intimidade forçada.
— Você continua a mesma de sempre. Não consegue tomar café puro, tem que colocar leite. Sempre dizia que não aguentava nada muito amargo.
— A vida já nos obriga a engolir sapos demais — Alícia tomou um gole do café. — Por que a bebida também teria que ser amarga? Para que sofrer à toa?
— É verdade, você tem razão. A vida tem muitos momentos amargos.
Yolanda parecia concordar, com o olhar doce, mas suas palavras eram cheias de espinhos.
— Então, já se fartou do amargor do casamento?
— Amargo não diria, mas é repugnante — Alícia sorriu.

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