O Bentley preto saiu lentamente do Jardim Sombrio.
A luz dos postes iluminava o interior do veículo. Metade do corpo de Kylen estava imersa na escuridão, enquanto sua mão direita acariciava a marca da mordida na mão esquerda.
— Diretor Lourenço, o médico do Sr. Hugo ligou. Disse que o quadro dele está estável, não há riscos cerebrais latentes e ele já está totalmente fora de perigo. Poderá ter alta em alguns dias.
Vinicius girou o volante e olhou pelo retrovisor.
Kylen pressionou a marca da mordida com a ponta do dedo. A luz que passava por entre os galhos das árvores na rua incidia dentro do carro, refletindo em seus olhos por trás das lentes, profundos como um lago insondável.
— Retire os homens da porta do quarto dele. Se ele quiser ter alta, deixe que faça como quiser.
— Sim, senhor.
Depois de sair do Jardim Sombrio, o carro acelerou e logo desapareceu na curva da avenida principal.
...
No meio da noite, quarto principal do Jardim Sombrio.
No banheiro, Alícia olhava para o próprio reflexo no espelho. As marcas vermelhas em seu colo a faziam lembrar do que acabara de acontecer, trazendo uma sensação indescritível de absurdo e raiva.
O que Kylen pretendia, afinal?
Em três anos de casamento, ele só a tocara uma vez, quando estava bêbado. Agora, em menos de meio mês, já a tocara duas vezes.
Ela não acreditava que Kylen fosse do tipo que queria "aproveitar ao máximo" antes do divórcio.
Mas o que ele queria exatamente era um mistério. Ela nunca conseguira decifrar a mente de Kylen.
De qualquer forma, se ele não a deixava se mudar, ela se recusava a ficar parada ali.
Acordara meia hora antes e, sem conseguir voltar a dormir, levantou-se para tomar banho.
Alícia afastou os pensamentos confusos e saiu do banheiro enrolada na toalha.
Seu olhar inevitavelmente varreu a cama desarrumada, e as cenas daquela intimidade forçada voltaram à sua mente.
Ela franziu a testa.
Desta vez, Kylen não havia deixado nada dentro dela, o que lhe poupava o trabalho de tomar pílulas.
Depois de se vestir, Alícia não saiu imediatamente. Foi até o escritório que usava antes.
A neve caía há horas, e os arbustos do jardim já acumulavam uma camada branca. Ela dirigia devagar.
Dona Maisa estava dormindo, mas Alícia esquecera momentaneamente que havia seguranças de plantão.
Na noite de neve, a guarita estava iluminada.
Ao verem um carro saindo, o segurança correu para bloquear a passagem.
Alícia pisou no freio. Olhou bem e reconheceu o segurança que a acompanhara ao hospital na última vez: um homem alto e forte, com cara de poucos amigos, mas que obedecia bem às ordens.
O segurança se aproximou, fez uma reverência respeitosa e sinalizou para que Alícia voltasse com o carro.
— Senhora, dirigir no meio da noite é perigoso. Por favor, volte para dentro.
Alícia o ignorou. Apoiou as mãos no volante, recostou-se no banco e encarou o segurança através do para-brisa.
Ela não conseguia dormir mesmo, ia ficar ali num jogo de paciência para ver quem cedia primeiro.
O segurança permaneceu imóvel no mesmo lugar por meia hora, mesmo com a neve acumulando em seus ombros.

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