— Isso...
O coração de Enrique falhou uma batida. Instintivamente, ele olhou para o rosto de Kylen.
O "ele" a quem Alícia se referia era, obviamente, Kylen.
Após sobreviver a uma tragédia, considerando o que ele sabia sobre Alícia, por mais que ela odiasse as atitudes anteriores de Kylen, não diria palavras tão carregadas de rancor profundo.
O que Kylen havia feito era condenável, mas, na visão de Enrique, não chegava a gerar um ódio mortal.
O que raios havia acontecido?
Ele virou a cabeça e viu a expressão rígida de Kylen, com os olhos injetados.
Um homem normal teria o coração partido e ficaria ressentido ao ouvir tais palavras da mulher que ama. Mas, ao observar Kylen, a reação parecia ser muito mais severa do que mera mágoa.
Desde a infância, Enrique nunca tinha visto uma expressão como aquela no rosto do amigo. Quando estava prestes a falar, a expressão de Kylen escureceu sutilmente, exalando uma aura gélida.
Ele havia voltado à sua típica aparência apática e mortal!
Enrique sentia dor de cabeça só de pensar nos problemas entre ele e Alícia.
Antes, ele acreditava que não deveria interferir na vida amorosa de Kylen, mas agora que sabia que o sobrinho dele, Alan Lourenço, estava vivo, precisava pensar no bem da criança!
— Seguinte.
Ele deu um tapinha no encosto da cadeira de rodas.
— Sente-se aqui e eu empurro você até lá. Quando estiver de frente para ela, fale com uma voz bem baixa, daquelas de quem está por um fio, sabe? Dê umas franzidas de sobrancelha casuais e tussa de vez em quando para mostrar o quão debilitado você está. Isso vai despertar a pena dela...
No entanto, Kylen não esperou que ele terminasse de falar. Ou melhor, talvez nem tivesse escutado. Ele simplesmente empurrou a porta entreaberta e entrou no quarto.
— Não, Kylen, me escuta, o que eu disse não tem erro...
Enrique foi atrás, empurrando a cadeira de rodas. Naquele momento crítico, fingir fragilidade era definitivamente a melhor tática. Além disso, Kylen estava de fato gravemente ferido; havia quase morrido naquela mesma manhã.
Custou-lhe horas para recobrar a consciência, e agora ele se segurava em seu último sopro de vida para ver Alícia. Ainda assim, ele queria aparecer na frente dela agindo como se não houvesse nada de errado.

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