— Não quero mais ficar no hospital, quero ir para casa dormir.
Sabia que Narciso concordaria com a ideia, mesmo que para isso ele tivesse que transferir o hospital inteiro para a casa dela, apenas para que pudesse retornar.
Assim que estava prestes a se virar, o cobertor sobre o seu corpo foi subitamente puxado para trás.
Uma mão grande e quente tocou as suas costas, enquanto a outra deslizou sob a parte de trás dos seus joelhos.
No seu estado atual, Narciso não conseguia nem caminhar com facilidade, quem dirá carregá-la. Portanto, aquela pessoa definitivamente não era ele.
Ao se deparar repentinamente com um par de olhos negros e frios, o corpo de Alícia enrijeceu. O seu semblante fechou na hora, com a repulsa e a fúria indisfarçáveis estampadas no olhar.
Ela só havia sido pega de surpresa por ser ele ali; em uma fração de segundo de choque, ergueu a mão sem hesitar e desferiu um tapa na direção do rosto dele.
Mas a mão que a sustentava pelas costas interceptou o seu pulso no mesmo instante. Os dedos secos e quentes não exerceram muita força, mas a prenderam de um jeito que a impedia de recuar a mão ou sequer acertá-lo.
— Como você foi parar no hospital? — Kylen baixou o olhar para o rosto abatido dela, com uma expressão sombria.
— O que isso te interessa? — retrucou ela, sem expressão.
Hélder deveria estar vigiando a porta, e mesmo assim esse homem entrou no quarto como se caminhasse por terra de ninguém.
Era muito provável que Vinicius tivesse neutralizado Hélder lá fora.
— Eu te perguntei onde está doendo. — O olhar de Kylen deslizou devagar e pousou sobre os lábios pálidos de Alícia.
A cor dos lábios dela sempre foi de um tom rosado e saudável; só adquiria aquela palidez quando o seu mal-estar beirava o extremo.
— A minha dor é ver a sua cara. Portanto, saia daqui agora mesmo! — A fachada inexpressiva de Alícia foi tomada por um rastro de fúria à medida que o seu emocional se revolvia, e ela disparou sem pensar duas vezes.
Assim que as palavras deixaram a sua boca, ela aproveitou a chance para erguer a outra mão e tentar golpeá-lo.
Alícia nunca se esqueceria daquele dia no guichê do tribunal, quando a funcionária declarou a plenos pulmões que ela e Kylen sequer eram casados legalmente.
Embora não houvesse mais ninguém por perto além daquela atendente, a impressão que teve foi a de que havia milhares de pares de olhos a julgando.
Aquele calafrio gélido da constatação tardia e a sensação humilhante de ter sido feita de idiota, ela jamais seria capaz de esquecer!
— Se você não vai sair, ótimo, eu saio!
Alícia se debateu com veemência, mas a mão que o homem apoiava debaixo dos seus joelhos ergueu-se de supetão, carregando-a em seus braços de uma vez por todas!
— Me solta!
— Você não disse que não queria ficar no hospital e que queria ir para casa? — Kylen pressionou o corpo contorcido dela com firmeza contra o próprio peito, sussurrando de forma rouca e profunda.

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