Ela ficou espantada ao sentir que aquelas mãos firmes pressionadas contra suas costas estavam tremendo levemente. Qualquer pessoa que não soubesse a verdade acharia que Lúcio estava perdidamente apaixonado por ela. Na realidade, ele provavelmente só estava se sentindo desconfortável por nunca ter abraçado ninguém daquela forma.
Foi apenas um breve momento antes que Lúcio a soltasse e recuasse para sua posição, colocando as duas mãos sobre o volante.
Nesse exato instante, o celular de Alícia tocou.
Era Narciso ligando:
— Onde você foi a essa hora da noite? Não vai me dizer que mentiu sobre a passagem ser para depois de amanhã e já fugiu de fininho?
Alícia respondeu com honestidade:
— Estou aqui no térreo, já estou subindo.
Depois de desligar, Alícia olhou para Lúcio, que continuava agarrado ao volante olhando para frente, e disse:
— Cuide-se bem. Durante as missões, preste atenção à segurança, não se machuque. A sua saúde é o que mais importa, ouviu?
Ela se lembrou de que Lúcio, assim como ela, não tinha família, mas ao menos ela era cercada por vários amigos que a amavam e cuidavam dela. Lúcio tinha apenas Hélder, que o idolatrava; e mais nenhum amigo ao seu lado.
Agora que ela estava partindo para o exterior, não haveria mais ninguém para se importar com ele.
Ela não pôde deixar de insistir com mais alguns avisos cuidadosos.
— Bom, vou subir para casa. Vá para casa cedo também, a noite está realmente muito fria.
Lúcio ergueu os olhos por cima do ombro de Alícia, fitando o saguão principal do prédio. Saindo do elevador, com a mão na barriga, caminhando em passos curtos e arrastados, estava Narciso.
Ao abrir a porta do carro, Alícia também avistou Narciso e resmungou, aborrecida:
— Por que ele desceu? Eu devia mandá-lo de volta para o hospital!
Com isso, ela colocou o capuz, empurrou a porta e desceu do carro. Do lado de fora, acenou com um sorriso para Lúcio e fez um gesto indicando que ele devia ir logo para casa. Fechou a porta do carro e correu a trotes na direção do saguão.
— Se você continuar andando, suas tripas vão cair no chão!
Ao ver o rosto pálido de Narciso, Alícia não sabia se sentia raiva ou pena e se apressou para ampará-lo pelo braço.
Narciso olhou para trás, de relance, para o carro estacionado do lado de fora.
— Quem é?
Kylen tirou as luvas elásticas pretas e arrancou as cicatrizes postiças que iam das costas de suas mãos até os pulsos.
Enrique observava a cena totalmente atordoado.
— Você fugiu daqui para fazer cosplay?
A pergunta saiu em um momento de puro choque. Como Kylen se daria a um trabalho tão absurdo?
Mas aquilo não era a prioridade no momento.
Seguindo Kylen até a pia e assistindo-o arrancar cicatrizes postiças, lavar as mãos e, em seguida, remover as lentes de contato, Enrique teve a certeza de que já havia visto de tudo na vida.
Ele disparou com urgência:
— Você está sendo investigado criminalmente, sabia? E ainda teve a audácia de sair escondido. Se alguém te flagrasse, sua reputação seria destruída de uma vez por todas!
As mãos de Kylen pararam enquanto tirava a falsa cicatriz. Seus olhos escuros, agora sem lentes, eram poços profundos e enigmáticos.
— Contanto que alguém acredite em mim, já basta.

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