Era o último dia do feriado de Ano Novo, e como todos voltariam ao trabalho no dia seguinte, Alícia retornou para sua casa em Baía Azul Serena logo após acompanhar Narciso de volta ao hospital.
No dia seguinte, quando terminou de se arrumar e estava prestes a sair, abriu a porta e viu um envelope de papel pardo caído no chão da entrada.
Ela olhou para os dois lados, mas não viu ninguém no corredor.
Sem coragem de abri-lo de imediato, deu meia-volta, pegou um bastão e cutucou o envelope de vários ângulos. Somente após se certificar de que não era nenhum artefato perigoso, agachou-se e o abriu.
Era um álbum de fotografias.
O mesmo álbum que sua avó costumava folhear em vida, e que Kylen lhe entregara ontem.
Quem o havia deixado ali, ou a mando de quem, era óbvio; ela sequer perdeu tempo pensando no assunto.
Quando fugiu de Jardim Sombrio, não pôde levar nada consigo. Na hora do incêndio, até fez questão de esconder o álbum em um local seguro.
E Kylen realmente o havia encontrado.
Com uma expressão impassível, Alícia abraçou o álbum, voltou para o quarto, guardou-o na gaveta e dirigiu até a emissora de TV.
Gabinete do Editor-Chefe.
As sobrancelhas de Lucas Barros estavam profundamente franzidas desde que Alícia colocara a carta de demissão em sua mesa, e não relaxaram um segundo sequer.
— Foi cortada da lista de correspondentes no Reino Unido e agora quer desistir? — Depois de um longo silêncio, ele finalmente conseguiu soltar essa frase.
— Eu pareço ser alguém tão irresponsável assim? — Alícia perguntou, achando graça.
Lucas recostou-se na cadeira, virando e revirando a carta de demissão como se fosse um espetinho de churrasco na brasa, mas sem abri-la; seu coração estava cheio de relutância.
É claro que ele sabia que Alícia não era irresponsável, mas simplesmente não conseguia entender o motivo da demissão.
Ela era uma das jornalistas mais promissoras do meio, com um futuro brilhante pela frente, e amava o que fazia.
— Por acaso a família do seu marido... não quer mais que você trabalhe? — Ele pensou um pouco e perguntou, sondando.
Ela voltou para sua mesa e, enquanto organizava o trabalho dos próximos dias, Hera Lima passou por ela, deixando casualmente uma vitamina de frutas em sua mesa, fingindo estar totalmente distraída.
— Queria convidar a sua mãe para almoçar. — Alícia segurou a mão dela com um sorriso divertido.
O pai de Hera era médico legista e a mãe, advogada; um falava pelos mortos, o outro, pelos vivos.
Ambos eram grandes referências em suas áreas.
— Assim, do nada? — Hera olhou para ela com desconfiança.
— Preciso de um favor dela, e podemos conversar durante o almoço.
Ela já tinha pesquisado na internet sobre os trâmites e os documentos necessários para dar entrada em um divórcio litigioso, mas, como não era da área, achou mais seguro que uma advogada redigisse a petição inicial, evitando erros na hora de submeter ao fórum.
— Vou te passar o WhatsApp dela. — Ao ouvir que Alícia precisava da ajuda de sua mãe, Hera rapidamente pegou o celular.

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