Como se seu corpo tivesse sido esvaziado num instante, e suas entranhas trituradas, restando apenas uma casca vazia, os olhos pretos e brancos de Alícia perderam o brilho.
De repente, uma mão cobriu seus olhos. A palma quente tocou seu rosto gelado.
— Não olhe — disse Julian, segurando-a pelos ombros.
Mas a cena de Yolanda abraçando a cintura de Kylen não saía de sua cabeça. Como um pesadelo, a imagem piscava e sumia, piscava e sumia, deixando-a tonta.
Finalmente, ela não aguentou. Apoiou metade do corpo no braço de Julian, abaixou a cabeça e teve ânsia de vômito.
O esforço do corpo para vomitar, mesmo sem nada no estômago, forçou as lágrimas a saírem. Em seu rosto pálido, os olhos estavam tão vermelhos que pareciam prestes a sangrar.
Dentro da casa, através do vidro, Kylen empurrou Yolanda no instante em que ela o abraçou. Como se sentisse algo, seus olhos negros e profundos olharam para o jardim, fixando-se na pessoa protegida por Julian.
O corpo dela tremia tanto que parecia prestes a se desintegrar em pó a qualquer segundo.
— Kylen!
Yolanda olhou para as costas dele, que se afastavam com passos rápidos e firmes. Pelo canto do olho, viu a bengala esquecida encostada na mesa, o que fazia qualquer um esquecer que a lesão na perna dele ainda não estava totalmente curada.
Ela girou a cadeira de rodas apressadamente para segui-lo.
Alícia realmente tinha vindo. Como esperado, ela não conseguia desapegar de nada naquela casa!
Ao ver o estado de Alícia, Julian percebeu que era uma reação causada pela forte oscilação emocional somada à leve concussão. Ele segurou Alícia com um braço, tentando levá-la embora dali.
Se soubesse que seria assim, jamais teria concordado em trazê-la.
Mas Alícia afastou a mão dele. Sua voz era fraca como fumaça prestes a se dissipar:
— Não pode acabar assim.
Ela levantou a cabeça e olhou para a casa da qual estivera afastada por mais de dez anos. Depois de tanto tempo bloqueada, só agora, entrando no jardim, ela podia olhá-la de verdade.
Cada tijolo e telha pareciam os mesmos de antigamente, mas a casa havia envelhecido muito.
Após tantos anos de sol e chuva, a madeira estava coberta de musgo.
Alícia caminhou até lá, pisando sobre os escombros.
Pisou em uma parte escorregadia, seu pé deslizou para trás e seu corpo cambaleou para frente.
Nos degraus da entrada, a expressão de Kylen endureceu. Ele fez menção de dar um passo, mas parou. Seus dedos, caídos ao lado do corpo, fecharam-se em punhos com tanta força que os nós dos dedos estalaram.
Julian segurou o braço de Alícia por trás e disse com urgência:
— Alícia, o que você está procurando? Eu te ajudo a achar.
Alícia parecia não ouvir som algum. Ela continuou avançando, passo a passo.
A madeira sob seus pés estalava. Algumas partes, que já haviam rachado ao cair no chão durante a destruição, agora cediam.
Conforme ela pisava, as rachaduras aumentavam com o rangido da madeira, até se partirem de vez.

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