Os olhos frios de Kylen eram abismos insondáveis.
— Vender para você? Você não tem interesse em colecionar joias. Para que o quer?
Diziam que, quando Kylen fixava aquele olhar penetrante em alguém, era capaz de ler sua alma.
Mas quem estava à sua frente era Julian, que crescera ao seu lado, um herdeiro criado pela Família Gonçalo. Tanto em presença quanto em educação, ele era uma raridade.
Ele sustentou o escrutínio de Kylen com naturalidade, sem desviar o olhar.
— Para presentear alguém. — A neve acumulava-se nos ombros de Julian.
Fazer um herdeiro de uma família tradicional ficar parado na neve para pedir algo a outrem... aquilo não era pouca coisa.
Kylen soltou uma risada curta, seus dedos apertando o cabo da bengala progressivamente.
— Não vendo.
Julian franziu o cenho.
— Não tem utilidade nenhuma para você ficar com ele.
— É da minha vontade.
Julian avançou rapidamente, segurando o braço dele para impedi-lo de entrar no carro. Sua voz límpida tornou-se grave:
— Eu nunca te pedi nada. Esse broche é muito importante para mim.
— Você sabe que nunca me pediu nada porque conhece o seu lugar e tem senso de limites. Mas olhe para o que está fazendo agora. — A aura ao redor de Kylen congelou conforme ele falava.
Julian encarou o olhar gélido do amigo.
— Você sabe que eu tenho limites. Para eu abrir a boca, é porque se trata de algo extremamente importante para mim...
— Julian!
A mão forte de Kylen agarrou violentamente o colarinho de Julian, interrompendo-o. Sua voz baixa reprimia uma ironia fria:
— Uma única menção ao nome "Julian" já te deixou tonto, não foi?
Em seus ouvidos, parecia ecoar a voz suave e risonha da mulher, repetindo "Julian" incessantemente, perturbando sua paz de espírito.
No instante em que Kylen agiu, Vinicius baixou o guarda-chuva preto para bloquear a visão dos convidados que saíam do leilão.
De repente, vindo da direita num cruzamento, um SUV preto avançou em alta velocidade, atravessou a pista e bloqueou o caminho, forçando o Bentley a parar.
Vinicius segurou firme o volante, com a expressão tensa.
Em Cidade Linvar, quem ousava interceptar o carro de Kylen tinha uma coragem fora do comum.
Mas, no segundo seguinte, ao reconhecer quem dirigia, ele olhou instintivamente pelo retrovisor interno.
A mão de Kylen, repousada no apoio de braço, fechou-se lentamente. Um sorriso muito tênue curvou seus lábios, emanando uma obsessão de quem tem o controle absoluto.
Alícia já havia trocado o vestido de gala desconfortável por suas roupas habituais.
Segurando o volante, ela encarou o Bentley.
Aquele era o caminho obrigatório de Kylen para retornar ao Jardim Sombrio.
Seu objetivo ao ir ao Jardim Luz para o leilão beneficente era encurralar Kylen e conseguir a entrevista. Ela não desistiria agora por causa de um broche.
Interceptá-lo ali era sua única chance de pegá-lo desprevenido.
Se perdesse essa oportunidade, dificilmente conseguiria prever o momento certo para abordá-lo novamente.

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