POV/ CHIRSTIAN
Otávio estava vivo, recebendo acompanhamento médico em uma propriedade discreta na região metropolitana de Porto Alegre. Eu havia providenciado uma equipe para cuidar dele e recebia atualizações frequentes sobre seu estado.
Ainda não conseguira visitá-lo.
Entre a empresa, o hospital e minha família instalada em casa, não havia encontrado uma oportunidade segura de conversar com ele pessoalmente.
Otávio queria ver as filhas.
Era compreensível.
Eu também queria que aquele reencontro acontecesse.
Mas precisava entender melhor o que havia ocorrido antes de permitir que Sky e Moon fossem surpreendidas por uma notícia daquela dimensão.
Principalmente porque o nome dele estava ligado a um acidente que destruíra duas famílias.
E porque eu tinha a impressão de que ninguém me contara a história inteira.
Meu telefone corporativo tocou.
Era um dos responsáveis pelo concurso Horizon Resort.
Atendi enquanto abria o arquivo de avaliação.
— Christian Blackwood.
— Senhor, concluímos a consolidação das notas técnicas.
Endireitei-me na cadeira.
— Finalmente uma boa notícia. Pode falar.
— A equipe de Sky Bittencourt permaneceu em primeiro lugar.
Olhei para a classificação.
— E as demais?
— Garcia em segundo e Gouveia em terceiro.
Passei os olhos pelos critérios de avaliação, conferindo os resultados.
A equipe de Sky tinha apresentado um trabalho consistente ao longo das etapas. Mesmo com os problemas pessoais que enfrentara, conseguira manter a qualidade do projeto.
Rocco ficaria satisfeito.
Muito satisfeito.
— Ótimo. Preparem a documentação para a deliberação final da diretoria.
— Sim, senhor. O resultado ainda precisa ser homologado.
— Estou ciente. Quero tudo registrado, inclusive as justificativas das notas.
— Pode deixar.
Desliguei e permaneci olhando para a tela.
Pelo menos alguma coisa estava dando certo.
Ou quase.
A classificação técnica não significava vitória oficial. Ainda havia procedimentos internos e uma última decisão da diretoria antes do anúncio.
Com meu pai exercendo funções executivas interinas, eu precisava garantir que ninguém utilizasse a ausência de Rocco para alterar critérios ou apressar decisões.
Salvei o arquivo e conferi o horário.
Já passava do meio-dia.
Eu havia prometido visitar Rocco.
Peguei o celular pessoal e encontrei outra mensagem de Moon.
Moon: Você sumiu de novo.
Respondi imediatamente.
Christian: Desculpa, amor. Estou indo ao hospital.
Moon: Como ele está?
Christian: Vou descobrir agora. Te ligo quando sair.
Ela enviou um coração.
Depois escreveu:
Moon: Não esquece de mim no meio dessa confusão.
Fiquei olhando para aquelas palavras por mais tempo do que deveria.
Christian: Impossível esquecer você, princesa.
Guardei o telefone, recolhi meus documentos e saí do escritório.
Eu precisava de respostas sobre a empresa, sobre o acidente e, principalmente, sobre o estado de Rocco.
Mas, naquele momento, tudo o que queria era entrar naquele quarto de hospital e encontrar meu primo acordado, reclamando de alguma coisa.
Até sentiria falta da arrogância dele.
O que demonstrava o quanto minha vida tinha saído do controle.
Encontrei minha avó sentada no corredor da unidade de terapia intensiva, segurando um lenço entre as mãos.
Ela estava mais magra.
Ou talvez fosse apenas a maneira como permanecia encolhida na cadeira, com os ombros caídos e os olhos inchados.
— Vó?
Helena levantou a cabeça.
— Christian, meu menino!
Aproximei-me e a abracei. Ela me apertou com uma força inesperada, escondendo o rosto contra meu peito.
— Como a senhora está?
— Estou bem, querido.
Olhei para o lenço molhado em sua mão.
— A senhora nunca soube mentir direito.
Ela tentou sorrir.
— Aprendi com você.
— Então está explicado. Sou péssimo nisso.
Helena acariciou meu rosto.
— Você parece cansado.
— Estou trabalhando demais.
— Precisa descansar.
— A senhora combinou isso com o Lorenzo? Porque já ouvi a mesma coisa hoje.
Ela soltou uma risadinha, mas seus olhos continuaram tristes.
— Ele sempre se preocupou muito com você.
— Eu sei.

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