POV/ SAKURA
Meu corpo inteiro ficou imóvel contra o banco.
— O quê?
— Você ouviu.
— Pablo...
— Eu já saquei, Sakura.
Virei o corpo um pouco na direção dele.
— Sacou o quê?
Ele virou na esquina antes de responder:
— O seu jogo.
— Que jogo?
— Esse.
Pablo apontou rapidamente para trás com uma das mãos antes de devolvê-la ao volante.
— Você acabou de me beijar daquele jeito porque ele estava olhando.
Abri a boca para responder, mas nenhuma desculpa saiu imediatamente. Fechei-a outra vez, irritada comigo mesma por precisar de tempo para negar.
— Não foi por isso.
Pablo me lançou um olhar rápido.
— Foi.
— Você não pode decidir por que eu beijo alguém.
— Não posso. Mas posso decidir se quero continuar sendo o cara que você beija olhando para outro homem.
Aquilo me calou.
Pablo dirigiu por mais alguns metros antes de estacionar junto à calçada e desligar o carro. O silêncio que ficou entre nós não era agressivo. Talvez fosse justamente por isso que eu me senti ainda pior.
Ele soltou as mãos do volante e virou-se para mim.
— Eu gosto de você, Sakura.
Baixei os olhos para minhas mãos sobre a bolsa.
— Eu também gosto de você.
— Eu sei. Esse é o problema. Você só gosta de mim.
Levantei a cabeça.
— E desde quando isso é problema?
— Desde que você está apaixonada por outro.
— Eu não estou apaixonada pelo Nathan.
Pablo respirou pelo nariz e assentiu devagar.
— Tá bom.
— Não faz essa cara.
— Que cara?
— Essa cara de quem está me deixando mentir porque ficou com pena.
Ele soltou uma risada curta e balançou a cabeça.
— Eu não estou com pena. Só não vou discutir com você sobre o que você sente.
Cruzei os braços e me virei um pouco mais para ele.
— Então o que você quer?
— Sair do meio.
Franzi a testa.
— Do meio de quê?
— De vocês dois.
— Não existe “nós dois”.
Pablo sustentou meu olhar por alguns segundos.
— Talvez esse seja justamente o problema.
Desviei o rosto e fiquei olhando pela janela. A rua estava silenciosa, com alguns carros estacionados e as janelas das casas fechadas. Era muito mais fácil olhar para qualquer coisa do lado de fora do que continuar encarando Pablo.
— Nathan não quer ficar comigo.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Engraçado. Porque toda vez que ele me vê perto de você, parece que está calculando quantos anos de cadeia pegaria se me atropelasse.

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