POV/ SKY
Ele não disse mais nada.
Também não precisava.
Fiquei algum tempo olhando pela janela até conseguir respirar sem sentir a garganta fechando.
Foi Christian quem retomou a conversa.
— Você disse que seu pai falava muito com você.
— Falava.
— Então pensa nos últimos dias antes do acidente. Alguma coisa mudou?
Meu sorriso desapareceu.
— Christian...
— Não quero que force lembrança nenhuma. Só quero saber o que você realmente lembra.
Apoiei a garrafa na mesa.
Por alguns segundos, pensei em dizer que não lembrava.
Mas lembrava.
Não de tudo.
De pedaços.
— Na noite anterior à audiência...
Christian endireitou o corpo.
Fechei os olhos.
A porta do escritório apareceu primeiro.
Entreaberta.
A luz acesa.
Meu pai falando ao telefone.
— Ele estava conversando com alguém.
— Você sabe quem?
— Não.
— Por telefone?
— Sim.
Dessa vez, eu tinha certeza.
— Eu estava passando pelo corredor e parei porque queria falar com ele. Não lembro sobre o quê. Talvez algum projeto meu. Talvez nada importante.
A lembrança vinha aos poucos.
— Meu pai estava diferente.
— Como?
— Aliviado.
Abri os olhos.
— Fazia semanas que ele vivia irritado, preocupado, cansado. O processo estava acabando com ele. Minha mãe também estava nervosa o tempo inteiro. Só que naquela noite ele parecia... esperançoso.
Christian apoiou os cotovelos nas pernas.
— Por quê?
— Porque ele tinha alguma coisa.
Parei.
Balancei a cabeça.
— Não. Ele não tinha acabado de encontrar. Ele já tinha preparado.
Uma palavra apareceu com tanta clareza que fiquei olhando para Christian.
— Dossiê.
A expressão dele mudou.
— Ele falou isso?
— Falou.
— Tem certeza?
— Tenho.
Passei a mão pelo braço.
— Eu lembro porque depois perguntei para minha mãe o que era um dossiê. Eu não entendia por que meu pai precisava de um.
Christian se aproximou um pouco.
— O que tinha nele?
— Não sei.
— Documentos?
— Provavelmente. Ele falou em documentos, em conseguir provar alguma coisa... Não lembro das frases inteiras.
— Não tenta completar.
Assenti.
— Eu sei que ele disse que tinha um dossiê. E sei que aquilo tinha relação com provar que a Zenitê era dele.
— Onde estava?
— Não sei.
— Na casa?
— Não sei.
— No escritório?
— Christian, eu não sei.
Ele levantou uma das mãos.
— Tudo bem.
— Eu só ouvi a conversa. Não vi o dossiê.
— Certo.
Apoiei a cabeça no travesseiro.
— Ele falou também que não seria mais só a palavra dele contra a de Sérgio.
Christian ficou muito quieto.
— Por quê?
— Porque tinha alguém ajudando.
— Quem?
— Não sei.
— Advogado?
— Não parecia.
— Alguém da empresa?
— Eu não sei.
Christian esfregou o polegar contra o indicador.
— Você lembra de alguma palavra?
Pensei.
— “De dentro”.
Ele parou.
— Seu pai falou isso?
— Acho que sim. Alguma coisa sobre alguém de dentro que estava disposto a confirmar.
— Confirmar o quê?
— Que ele estava falando a verdade. Que a tecnologia era dele. Talvez sobre os documentos também. Não sei.
Christian se levantou.
Caminhou até a janela e voltou.

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