POV MOON
Cobri a boca com as duas mãos, sentindo a garganta travar de vez. Caminhei até ele em passos rápidos, sem me importar com o piso frio, e passei os meus braços ao redor dos ombros magros do meu pai.
Ele me puxou contra o peito com a força que ainda tinha nos braços. Encostou o queixo no topo da minha cabeça e deixou um beijo demorado no meu cabelo, com a respiração pesada soprando contra os meus fios.
— Que saudade, pai... que orgulho de você — sussurrei com a voz sumindo no choro.
Afundei o rosto no ombro dele e fechei os olhos, sentindo o calor real do corpo dele. Por meses a fio, a única imagem que eu tinha do meu pai era a de um corpo inerte estendido numa maca, cercado por tubos, fios e o bip monótono de monitores que pareciam contar os minutos para o pior. Eu tinha passado noites inteiras com o medo cravado no peito de nunca mais ouvir a voz dele, de nunca mais receber um abraço. Eu era nova demais quando o acidente aconteceu e precisei engolir a infância de uma vez só, forçando uma postura firme para não desmoronar o resto da casa enquanto a Sky se quebrava em duas para manter as contas pagas.
Sentir as costelas dele se movendo com o ar que ele mesmo puxava, ouvir a batida firme do coração dele encostada no meu ouvido, era a certeza de que ele estava vivo.
Ficamos os dois ali, sustentando aquele abraço no meio do quarto, comemorando aquele pequeno milagre.
A enfermeira ajudou o meu pai a sentar na poltrona estofada ao lado da janela grande, ajeitou as almofadas nas costas dele e se despediu com um sorriso carinhoso:
— Deixei a bandeja com a refeição leve dele aqui na mesa. Ele tá liberado para comer e conversar um pouco, mas sem esforço excessivo. Vou deixar vocês dois à vontade. Qualquer coisa é só apertar a campainha.
— Muito obrigada — respondi, secando o rosto com as costas das mãos.
A porta bateu suave e ficamos apenas nós dois. Puxei a cadeira de metal e sentei bem de frente para ele, segurando o joelho dele com uma das mãos.
A fala do meu pai ainda estava bastante arrastada por causa do tempo em coma. Ele conseguia soltar respostas curtas, como "sim", "não" ou um murmúrio afirmativo, mas qualquer palavra mais longa saía pesada, travada pela metade. O meu próprio nome virava apenas um "Moo..." arrastado.
Percebendo a dificuldade, ele esticou o braço até a mesinha de cabeceira e pegou o bloco de notas junto com uma caneta azul.
Segurou o plástico com os dedos rígidos e começou a escrever na folha em branco, fazendo força no papel. As letras saíram trêmulas, tortas e irregulares, mas perfeitamente legíveis.
Ele virou o bloco para mim:
"Cadê a sua irmã?"
— A Sky vai demorar um pouco para chegar, pai, mas disse que vem direto para cá assim que terminar o que precisa fazer.
O meu pai assentiu devagar, soltando o ar pelo nariz. Ele voltou a ponta da caneta para a folha e escreveu mais algumas linhas com lentidão. Quando terminou, ergueu o papel:
— A Sky não parou um único dia — continuei, sentindo a voz sair mais baixa. — Ela estudou sem parar, fez o Enem, conseguiu a bolsa integral pelo ProUni e terminou a faculdade de Arquitetura. Assim que pegou o diploma, começou a trabalhar direto na empresa do Gouveia para conseguir pagar os custos do hospital e as cirurgias que o senhor precisava. Só que... Eles agiram de má-fé com a gente, pai. Foram covardes.
O meu pai apertou a caneta entre os dedos com força, sem desviar os olhos de mim.
— Eles colocaram uma pressão imensa em cima da Sky para ela aceitar casar com o Victor. Minha irmã achou que aquele casamento ia quitar as nossas dívidas e manter o seu tratamento garantido aqui. Só que no dia da cerimônia, ela pegou o Victor traindo ela com a Sofia. A Sky largou tudo, cancelou o casamento e saiu da empresa na mesma hora.
O maxilar do meu pai endureceu de imediato. Apertei a mão dele para mantê-lo calmo antes que tentasse falar.
— A gente passou por um aperto feio logo depois disso, pai. Cortaram benefícios, suspenderam o plano de saúde e foi uma fase muito difícil. Mas nós conseguimos nos virar. Hoje a gente tá de pé de novo. Entramos na concorrência do projeto de arquitetura de um resort para uma empresa enorme chamada Blackwood.
No segundo em que o nome saiu da minha boca, o rosto do meu pai mudou.
Ele puxou o canto da boca para o lado, fechando a expressão numa careta carregada, quase com aversão ao que tinha acabado de ouvir. O olhar dele escureceu de um jeito tão pesado que eu travei no lugar.
— Pai? O que foi? — perguntei, sem entender a reação.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Virgem Traída Contratou um Gigolô e Ele era um Bilionário