POV: MOON
Passei pela porta da diretoria com a respiração curta e o coração batendo descompassado contra as minhas costelas. As minhas pernas estavam tão bambas que precisei dar passos curtos pelo corredor, me apoiando de leve na parede até alcançar a porta do banheiro feminino do andar.
Entrei, tranquei a cabine e me encostei na porta fria, soltando o ar que parecia preso na minha garganta desde o segundo em que aquele homem se ajoelhou na minha frente.
Tudo parou de fazer sentido.
O meu plano inicial era simples, quase inofensivo. Eu tinha subido até a sala do Christian decidida a jogar um verde, avaliar as reações dele com calma e tentar arrancar alguma pista sem me expor. Mas a cena que encontrei acabou com qualquer resquício de autocontrole: ver a Cecília inclinada sobre a mesa, alisando o colarinho dele e arrumando aquela gravata com intimidade demais, fez um fogo esquisito subir pelo meu peito.
Eu fiquei com tanta raiva, com tanto ciúme acumulado do final de semana inteiro, que perdi a cabeça e apertei para ligar para o Senhor C ali mesmo, na cara dele.
E era ele. O Christian era o Senhor C.
Caramba!
Fui até a bancada de mármore do banheiro, abri a torneira e joguei água gelada nas mãos, nos braços e no pescoço para tentar diminuir o calor da minha pele. Olhei para o espelho grande: a minha boca estava vermelha e levemente inchada pelos beijos dele, as bochechas coradas, o cabelo loiro completamente bagunçado e o penteado desfeito pelas mãos grandes dele.
Ajeitei a gola da minha camisa de seda verde, fechei os botões até a altura correta e passei os dedos pelos fios de cabelo, tentando colocar tudo no lugar.
A minha mente continuava girando sem parar. As palavras dele ainda ecoavam dentro da minha cabeça, com aquele tom grave e firme: ele dizendo que queria cuidar de mim, que me amava, que eu era dele... e aquela resposta absurda quando perguntei se ele estava me pedindo em casamento.
"É claro que eu tô te pedindo em casamento."
Aquele homem era louco. Completamente maluco, autoritário, perigoso... e tinha acabado de fazer o meu corpo inteiro entrar em combustão em cima de uma mesa de mogno.
Respirei fundo três vezes, ajeitei a saia e saí do banheiro com a cabeça erguida, descendo de volta para o andar da nossa equipe de projetos.
Assim que entrei na sala dos desenhistas, dei de cara com a Sakura, a nossa colega de equipe e irmã do Diego que dividia as pranchetas com a gente. Ela estava com uma caneta presa no coque frouxo e segurava uma caneca de chá:
— Tá tudo bem, Moon? — ela perguntou, me olhando de cima a baixo com a testa franzida.
— Tá... tá tudo ótimo — respondi rápido, ajeitando a alça da minha bolsa no ombro.
— Certeza? Seu rosto tá vermelho.
Dei uma risadinha nervosa, passando a mão na nuca para disfarçar o constrangimento:
— Foi uma correria danada lá em cima... depois eu te conto com calma, é uma loucura sem tamanho.
A Sakura riu, encostando na divisória:
— Nem me fale em loucura. Você conseguiu entregar a pasta do projeto direto para o diretor?
— Entreguei. Tá tudo na mão dele agora.
— Que alívio! A gente adiantou o cronograma em uma semana inteira. O prazo oficial do edital era só para a semana que vem, mas ter tudo aprovado antes vai salvar a nossa pele.
— Pois é, agora é só esperar o retorno da diretoria — concordei, pegando as minhas coisas em cima da mesa.
Entrei no carro com o coração acelerado de expectativa, louca para ver o meu pai de perto e esquecer, pelo menos por algumas horas, todo o caos que o Christian tinha causado na minha cabeça.
O cheiro característico de álcool e produtos de limpeza hospitalar me recebeu assim que passei pelas portas automáticas da recepção. Peguei o crachá de visitante na portaria e fui direto para os elevadores, subindo até a ala de internação do quarto andar.
Caminhei sozinha pelo corredor silencioso, com as minhas sapatilhas batendo no piso branco. Quando segurei a maçaneta prateada do quarto 408 e empurrei a porta devagarzinho, a cena que encontrei me fez travar no mesmo lugar.
O meu pai não estava deitado na cama cercado de aparelhos, como eu estava acostumada a ver nos últimos meses.
Ele estava sentado na beirada do colchão, vestindo um pijama de algodão cinza claro. A enfermeira de plantão estava parada ao lado dele, sorrindo com os braços estendidos.
— Olha só quem chegou bem na hora da surpresa — a enfermeira comentou em tom alegre.
O meu pai ergueu a cabeça devagar. Os olhos dele, fundos e cansados pelo tempo que passou desacordado, brilharam ao me ver parada na porta. Ele abriu a boca, puxou o ar com esforço e soltou com a voz grossa e arrastada:
— Fi... lha.
— Pai! — dei dois passos rápidos para dentro do quarto.
O meu pai apoiou as duas mãos na beirada da cama, firmou os pés descalços no chão com lentidão e fez força nas pernas. A enfermeira segurou de leve no braço dele para dar apoio, mas ele sustentou o próprio peso, ficou completamente de pé e deu dois passos curtos e trêmulos na minha direção.
— Oiie.... Moon... min...haa... lu...a....
As lágrimas escaparam dos meus olhos no mesmo instante.

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