"Érick"
Acordar com a Lorena nos meus braços e a certeza de que ela estaria ali todos os dias era uma nova realidade que eu não imaginava que precisava até ela entrar na minha casa. O peso que eu sentia no peito não era mais a rotina sufocante dos últimos anos. Era o braço da Lorena, jogado displicentemente sobre o meu torso e o calor da sua respiração contra o meu pescoço.
Pela primeira vez na vida, eu acordei e não queria sair da cama porque ela estava ali, ao meu lado. No lugar que eu jurei que ninguém jamais ocuparia outra vez porque eu sempre pensei que relacionamentos eram um problema, uma distração que me tirariam o foco do que realmente importava. E foi por isso que eu me casei com a mãe da Alice, ela era o que a Lorena não conseguia ser: invisível.
Mas eu descobri que eu estava enganado, a Lorena justamente me dava o foco que eu precisava, me ensinava a olhar para as coisas que realmente importavam, me dava uma vida além do trabalho. Me fazia sentir realmente vivo.
Eu olhei para ela, fascinado com a beleza delicada do seu rosto. A Lorena parecia uma pintura em tons de marfim e cetim, o cabelo espalhado pelo travesseiro como fios castanhos em meio ao caos da nossa entrega na noite anterior.
- Você não vai a lugar nenhum. - Eu sussurrei, mais para mim do que para ela, reafirmando tudo o que eu lhe disse no dia e noite anteriores, enquanto afastava uma mecha de cabelo do seu rosto.
Eu não era o dono dela, mas eu pertencia àquela fada. E a certeza de que ela acordaria ali todos os dias, de que o quarto dela agora era este que ela dividia comigo, trouxe uma paz perigosa, uma paz que eu tive medo de perder.
A porta do quarto foi aberta sem cerimônias. Um furacão de cabelos escuros e pijamas de coelho saltou sobre os lençóis.
- Papai! Lolô! - O grito alegre da Alice quebrou o silêncio sagrado do amanhecer e ela caiu entre nós como uma pluma desajeitada solta no vento.
A Lorena despertou com um sobressalto, os olhos castanhos demorando um segundo para processar que não era um sonho... ou um pesadelo, eu não sabia ao certo. Mas o sorriso que ela deu ao ver Alice se aninhando entre nós foi o golpe final no meu coração. Alice ria, pulando entre os nossos corpos, celebrando a nova família com a sua Lolô e com a pureza de quem não conhecia o preço do sobrenome que carregava.
A Lorena agarrou a Alice em um abraço apertado e a encheu de beijos que faziam a minha filha dar aqueles sorrisinhos felizes que faziam o meu dia melhor. E logo eu estava envolvido naquele abraço e sendo coberto de beijos pelas minhas meninas lindas.
O café da manhã seguiu o ritmo do despertar, elétrico, feliz, barulhento. Sem a presença da Adelaide olhando torto para a lorena, sem trabalho sobre a mesa ou o celular apitando com os compromissos do dia. Apenas o som de Alice contando sobre a escola e a Lorena trocando olhares cúmplices comigo por cima da xícara de porcelana.
- Tome cuidado hoje, Érick. Não faça nada que possa te prejudicar. Se surgir algum problema, recue. - A Lorena disse antes de entrar no carro.
- Eu não recuo, minha fada. Mas não se preocupe, tudo ficará bem. - Eu dei um beijo rápido em seus lábios e ganhei um sorriso quase tímido. - Não saia do carro e se sair, o Alberto é a sua sombra, ele sabe o que fazer.
- Sim, Sr. Albelini. - Ela respondeu atrevida, mas seu sorrisinho não me deixou dúvida sobre a sua intenção, ajeitando o nó da minha gravata cinza prateada. - Eu aprecio a forma como você escolhe as gravatas.
- Escolho especialmente para você! - Eu respondi, roubando-lhe um beijo um pouco mais demorado e cheio de promessas, sem me importar com quem estivesse olhando.


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