— Voltei ontem, passei para ver como o senhor e a senhora estão.
A voz masculina, grave e magnética, era tão profunda e agradável quanto um violoncelo.
Os dedos de Ivânia, que folheavam o álbum, pararam de repente.
Seu coração, dentro do peito, pareceu ter recebido um choque, batendo descontroladamente.
— Não se dedique apenas ao trabalho, você já não é tão jovem. Precisa pensar seriamente em se casar. Já faz quase um ano que está com sua namorada, não é? Seu tio disse que seus pais estão muito satisfeitos.
— Jefferson, esqueça o passado. Case-se, tenha filhos, você ainda tem uma vida longa pela frente... Se a Ivânia pudesse ver, ela também gostaria de te ver feliz.
A voz de Joaquim continuou, em um tom paternal.
Ivânia, instintivamente, prendeu a respiração, esperando pela resposta do homem.
No entanto, esperou até quase sufocar para ouvi-lo dizer com indiferença:
— Da última vez, a senhora me disse que suas dores de cabeça voltaram. É grave?
— Ah, são coisas da idade, não se preocupe. — Respondeu Tereza, acenando com a mão.
No quarto, Ivânia não pôde deixar de sorrir amargamente.
Aquele era mesmo seu pai.
Aconselhando o homem que ela mais amava a se casar e ter filhos com outra mulher.
Mas, pensando bem, Ivânia estava morta.
Não podia esperar que ele ficasse de luto por ela para sempre.
Ela não podia ser tão egoísta, nem tão cruel.
Ivânia baixou os olhos, e as lágrimas começaram a cair, uma após a outra, sem aviso, sobre o álbum em suas mãos.
Elas borraram os jovens sorrisos do rapaz e da moça na foto.
Eles se conheciam desde a infância.
Dos cinco aos vinte e cinco anos, acompanharam um ao outro por mais de duas décadas.
Amigos de infância, um amor inocente.
Pensavam que iriam da juventude à velhice juntos, mas o destino tinha outros planos.
Jefferson Ortega devia estar muito ocupado, pois não demorou a ir embora.



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