Renata abaixou a mão, que pousou suavemente sobre o joelho, com as pontas dos dedos levemente encolhidas.
Aquele pingo de calor que havia acabado de brotar no fundo do seu coração esfriou pouco a pouco.
Era verdade.
Ela havia sido tão dura com ele no dia anterior, o expulsou, disse todas as palavras que machucavam e traçou todos os limites.
Como ele poderia ainda ter ficado, zelando por ela, cuidando dela, passando a noite em claro?
Foi a febre que a deixou confusa, para ter um sonho tão real.
Ela suspirou suavemente, com um traço de confusão passando por seus olhos, algo que nem ela mesma percebeu.
Ela e Daniel só poderiam ficar assim?
Ora distantes, ora próximos, em um puxa e repuxa constante. Era claro que o coração dela batia mais forte quando ele se aproximava, e era evidente que se sentia segura quando era protegida por ele, mas, assim que voltava à lucidez, só restavam mal-entendidos, distanciamento, expulsões e repetidas declarações de "não dever favores" para demarcar os limites.
Ele não dizia que gostava dela, não falava de sentimentos verdadeiros, apenas dizia "protejo a sua segurança".
Ela não perguntava sobre o passado, não questionava os motivos, apenas o afastava cegamente, fingindo não se importar.
Um relacionamento assim era como uma corda fina, esticada a ponto de deixá-la sem fôlego.
Renata respirou fundo, reprimindo as emoções caóticas que fervilhavam em seu coração, e lentamente se apoiou no sofá para se levantar.
Fosse sonho ou realidade, a vida tinha que continuar.
Fosse a amnésia ou a confusão, ela não podia ficar presa nessas emoções para sempre, levando-se à beira de um colapso.
Ela caminhou até a mesa, pegou o remédio para resfriado que havia sobrado da noite anterior e o engoliu com água morna.
O sabor do remédio era levemente amargo, escorregando por sua garganta, mas deixou sua mente um pouco mais clara.
Seu corpo ainda estava fraco, mas ela não queria mais ficar sozinha naquela casa vazia, com a cabeça cheia de pensamentos soltos.
Ela vestiu roupas leves e limpas, arrumou-se de forma simples, pegou a bolsa e saiu lentamente em direção ao hospital.
Ela foi procurar o seu médico responsável, para perguntar sobre o progresso da recuperação da sua memória e também para saber quanto tempo o seu corpo atual ainda aguentaria.
O hospital continuava com o cheiro familiar de desinfetante, silencioso e organizado.
O médico a viu entrar, fez um sinal para que ela se sentasse, examinou cuidadosamente os relatórios dos exames daqueles dias, e depois levantou a mão para sentir o pulso dela e olhou o fundo de seus olhos.
"Como você se sente? A febre alta passou?"
"Passou, estou muito melhor, só me sinto um pouco fraca", Renata respondeu em voz baixa.
"Hum, a sua base física é boa, você está se recuperando bem."
O médico assentiu com a cabeça, e o tom de sua voz tornou-se um pouco mais grave: "Mas, Renata, você precisa lembrar que o mais crucial para você agora não é o corpo, são as emoções."
Renata ficou levemente surpresa.
"A sua amnésia tem relação direta com estímulos emocionais e estresse mental."
O médico falou com um tom sério, aconselhando palavra por palavra: "Você deve manter as suas emoções estáveis. Não pode ter grandes alegrias ou tristezas, não pode ficar muito agitada e, menos ainda, cair em depressão, dor ou dúvida constante por longos períodos."
"Se as emoções ficarem intensas e os nervos tensos, não apenas a recuperação da memória, mas até o seu estado de estabilidade atual pode ser quebrado."
Renata ficou em silêncio.
Ela também queria estabilidade.
Ela também queria paz.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Glória da Ex-Esposa
Ah não! Pq não continuam?????...