A noite era densa.
Em outro lugar.
Renata dirigia. Sentada no carro, seus dedos apertavam o volante até os nós ficarem brancos.
A janela estava aberta, mas o vento não conseguia dissipar o fogo sufocante que se acumulava em seu peito.
Pelo retrovisor, seu rosto mantinha aquela expressão fria e decidida de sempre, traços afiados, sem demonstrar muita emoção, exceto por uma amargura escondida no fundo dos olhos que nem ela mesma percebia.
Não deveria ser assim agora.
Há alguns dias, ela já tinha resolvido toda a papelada.
A inscrição para os Médicos Sem Fronteiras foi aprovada, o treinamento concluído, o visto emitido, o itinerário estava claro —
Em breve, ela embarcaria num voo para uma zona de conflito, deixando para trás a cidade que guardava toda a sua juventude.
Ela era médica. Desde o primeiro dia de faculdade, essa crença estava gravada em sua alma.
Salvar vidas, sem fronteiras, sem tomar partidos.
Não era um impulso momentâneo; era o caminho que ela planejava há anos.
Mas, por ironia, desde que confirmou a viagem, alguém vinha bloqueando seu caminho nas sombras.
Sua passagem aérea foi cancelada sem motivo uma vez.
O centro de exames médicos alegou uma "falha no sistema" e não encontrou seus dados.
Até os medicamentos de emergência que ela pediu a um amigo para preparar desapareceram misteriosamente na transportadora.
No início, ela achou que fosse coincidência.
Até que pediu para investigarem, e todos os bloqueios apontavam para a mesma pessoa —
Daniel.
Aquele que costumava ficar ao seu lado sem arredar o pé, aquele que arriscaria a vida por uma palavra dela.
Aquele que ela achava que, mesmo se o mundo inteiro não a entendesse, estaria ao seu lado.
Renata fechou os olhos por um momento. Ao abri-los, restava apenas frieza.
Ela sabia onde Daniel estava.
O clube privado mais exclusivo da cidade, que só aceitava membros internos, onde o dinheiro não bastava. Era o tipo de lugar que alguém com o histórico de Daniel frequentava.
Lá dentro estariam seus amigos de infância, conhecidos, gente do mesmo círculo.
Ela costumava vir aqui antigamente, seguindo Daniel como uma sombra, ou talvez como uma luz.
Naquela época, ele era seu guarda-costas, e ela era a pessoa que ele protegia com a própria vida.
Dez anos.
Renata riu com escárnio em seu interior.
Dez anos, e no fim, era só isso.
O elevador foi direto ao terceiro andar. Assim que a porta abriu, ouviu-se o som de risadas e brindes vindo do camarote. Estava animado.
Ela parou na porta, respirou fundo e, num movimento direto, empurrou a pesada porta de madeira.
O som lá dentro parou por um segundo.
Todos os olhares se voltaram para ela em uníssono.
Em meio à fumaça, ela avistou Daniel imediatamente, sentado no lugar principal.
Ele vestia uma camisa preta com texturas discretas, as mangas dobradas casualmente até o antebraço, revelando pulsos de linhas fortes.
Passados alguns anos, ele estava mais denso, mais frio e muito mais distante do que antes.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Glória da Ex-Esposa
Ah não! Pq não continuam?????...