Mesmo sabendo desde sempre que seu peso no coração de Rebeca era muito menor do que o de Helena, ouvir isso doeu. O tom de Samuel ficou levemente ofendido.
— Eu só estou preocupado com você. Quando me preocupo, perco a cabeça.
E bastou essa carinha de coitado para que o coração de Rebeca amolecesse na mesma hora.
— Eu não quis dizer isso...
Assistindo a tudo do lado, Helena quase roía os próprios dentes de ódio por Samuel.
Cachorro cínico! Onde ele aprendeu essas táticas de falso coitado?
Nem todo o oceano Atlântico daria conta de lavar a cara de pau desse sujeito!
Ainda assim, pelo bem da saúde de Rebeca, Helena engoliu o orgulho e foi se higienizar de cima a baixo.
Depois de terminar, ela voltou marchando para a sala e declarou sua soberania.
— Pronto, você já pode dar o fora daqui!
Samuel começou a guardar a sobra de durião da mesa. Seu tom não era quente nem frio, carregando um deboche velado.
— Você pegou um foguete espacial? Chegou bem rápido.
— É porque eu estava na Cidade C!
A distância da Cidade C até a Cidade R era de apenas uma hora de carro.
Não era à toa que ela tinha chegado tão rápido.
Samuel já imaginava que, assim que Helena colocasse os pés em casa, ele seria chutado por Rebeca.
Só não esperava que o chute acontecesse com tanta antecedência.
Ele lamentou amargamente, mas não tinha outra escolha a não ser aceitar seu destino.
— Deixa eu medir sua temperatura mais uma vez. Se não houver febre, eu vou embora.
Ele pegou o termômetro auricular e se aproximou de Rebeca.
Quando as pontas dos dedos dele roçaram de leve a orelha dela, o rosto que havia acabado de esfriar, voltou a esquentar incontrolavelmente.
37,3 graus.
Estava tudo bem. A febre havia sumido.
O coração tenso de Samuel finalmente relaxou. Ele perguntou com aquela voz suave:
— E a cabeça? Ainda dói?
Rebeca balançou a cabeça.
— Está bem melhor.
— E a cólica?
— Não dói mais.
Mesmo que uma recuperação lenta significasse ter uma desculpa para continuar lá cuidando dela...
Ele preferia vê-la cem por cento curada o mais rápido possível.
Tinha pavor de que ela passasse mal por mais um segundo sequer.
Ele organizou a maleta de remédios, pegou o paletó que estava pendurado na cadeira de jantar e olhou para trás.
— Estou indo.
Rebeca soltou um murmúrio de confirmação, sem coragem de encará-lo.
Afinal, no coração dela, Samuel Batista seria sempre um traste cheio de truques sujos.
— Ele é bom na cozinha. — defendeu Rebeca, sendo o mais imparcial possível.
Helena enfiou a cabeça na sala novamente.
— Você não tá se apaixonando de novo não, né?!
Rebeca soltou uma tosse forçada e respondeu rápido.
— Claro que não.
— Não vá cair na lábia dele de novo, pelo amor de Deus!
Ela desviou o olhar. Inconscientemente, a ponta de sua língua roçou os lábios enquanto a voz saiu trêmula pela culpa.
— Não caí não.
— Bom mesmo. — Helena finalmente sentiu que podia voltar a se entupir de comida em paz.
Mais tarde naquela noite, Helena obrigou Rebeca a fazer um escalda-pés relaxante e mandou ela dormir cedo.
Rebeca disse que faria isso.
Mas, depois de dar boa noite para a amiga, ela não deitou de imediato.
Em vez disso, ficou sentada até o celular acender com a notificação de uma nova mensagem.
"Cheguei em casa."
O número não estava salvo nos contatos, mas ela sabia perfeitamente quem era.
Ela não respondeu à mensagem, mas, por alguma razão inexplicável, seu coração se encheu de paz.

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