Israel Passos não sabia como havia saído do carro.
Apenas quando o veículo desapareceu rapidamente e o barulho ao redor silenciou, ele voltou a si, devagar.
Em sua mão, ainda segurava o guarda-chuva que Rebeca Ribeiro havia lhe entregado às pressas.
A última frase dita antes da partida do carro ficou ali, presa com ele sob a chuva.
Ele sorriu para si mesmo, um sorriso mudo e cheio de autodepreciação.
Seus olhos transbordavam desilusão.
Ficou ali, sozinho na chuva, por muito, muito tempo.
...
Rebeca Ribeiro levou Samuel Batista para o hospital o mais rápido que pôde.
Quando a enfermeira mediu a temperatura, tomou um susto.
— Trinta e nove e meio!
Para um adulto, essa temperatura causava um desconforto absurdo.
Vinha acompanhada de dores de cabeça latejantes e dores musculares por todo o corpo.
Ela nem sabia como ele tinha conseguido dirigir até ali.
Ainda bem que nada de grave havia acontecido.
A enfermeira aplicou uma injeção para baixar a febre e colocou o soro. Só então o coração de Rebeca começou a se acalmar.
Durante todo o tempo, Samuel não soltou a mão dela.
Apertava firme, recusando-se a afrouxar os dedos.
O aperto era tanto que chegava a doer, mas ela não disse nada. Apenas deixou que ele a segurasse.
Com a mão livre, puxou um lenço de papel e secou a água da chuva no rosto dele.
O rosto de Samuel estava levemente avermelhado pela febre, mas seus olhos brilhavam.
Ele não parava de olhar para ela.
— Durma um pouco. Você vai se sentir melhor. — Rebeca aconselhou, com a voz suave.
Mas Samuel não queria fechar os olhos.
Sentia que aquele momento era um sonho.
Não queria acordar.
Tinha medo de que, se piscasse, a ilusão se desfizesse em pedaços.
Por isso, continuou ali, lutando contra o cansaço.
Sem alternativa, Rebeca prometeu:
— Eu não vou a lugar nenhum. Mas você precisa descansar.
Samuel buscou confirmação mais de uma vez. Só quando teve certeza de que ela não estava mentindo, deixou as pálpebras pesadas caírem.
Ele apagou em segundos.
Ainda bem que era por mensagem, senão Klara já teria percebido tudo.
Mas a mais velha continuou sem suspeitar:
— Então quando você volta?
— Uns três ou quatro dias... eu acho.
O médico havia dito que Samuel precisaria ficar internado por esse tempo.
Klara acreditou sem pestanejar:
— Que bom, a Juliana e eu entramos num grupo de viagem para idosos. São quatro dias também.
Para não preocupar Rebeca, Klara fez questão de ressaltar que levaria a cuidadora e tomaria os remédios na hora certa.
Só então Rebeca relaxou.
Ela ficou de vigília até o soro acabar. Quando viu a enfermeira tirar a agulha, sentiu um alívio real.
Dessa vez, ele estava em um quarto VIP particular. Era espaçoso, muito diferente da correria e simplicidade da Cidade H.
Tinha até uma cama confortável para acompanhante.
Mas como sua mão continuava presa à dele, ela não conseguiu ir deitar. Acabou se debruçando na beira da cama e cochilou um pouco.
No meio daquele torpor entre o sono e a vigília, sentiu o aperto no pulso afrouxar.
Em seguida, seu corpo foi puxado para um abraço.

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