Mas, no final das contas, aquele lugar só serviu para aprisioná-la.
Ela sentou-se na sala escura e vazia, e as lágrimas começaram a rolar, incontroláveis.
Sem conseguir aceitar a derrota, pegou o celular e ligou para Israel Passos mais uma vez.
Sua mão tremia ao segurar o aparelho.
Sua voz estava sufocada pelo choro.
— Israel, atende...
— Israel, por favor, atende o meu telefone.
— Israel, eu te imploro, atende.
Do outro lado da linha, apenas a voz fria e robótica da operadora lembrava, repetidamente, que o número discado não podia receber chamadas no momento.
Israel Passos a havia bloqueado.
Desde que ela começou a dar escândalos recusando o divórcio, perdeu completamente o contato com ele.
Mesmo assim, ela se recusava a desligar. Com o rosto banhado em lágrimas, ela gritava para a linha muda, exigindo respostas que nunca viriam:
— O que eu tenho de pior que a Rebeca Ribeiro?! Eu sou mais nova que ela! Minha família é melhor que a dela! Eu te amo muito mais que ela! Por que você não olha para mim?!
— Israel... você não pode olhar para mim só mais uma vez?
Fernanda Diniz também voltou para casa bêbada.
A casa dela não estava vazia e escura. Ela tinha um marido e um filho.
Calel Lacerda estava sentado ajudando o filho com um trabalho manual da creche. Quando a viu entrar, levantou-se e serviu um copo de água para ela.
— Por que bebeu tanto de novo? — Calel perguntou, com a testa franzida.
Fernanda virou mais da metade do copo antes de responder, em um tom carregado de insatisfação:
— E eu tenho escolha? Posso não beber?
Ela estava, de novo, jogando indiretas. Ironizando o fato de Calel ser ruim em networking e não gostar de beber em eventos de negócios.
A expressão de Calel endureceu por um segundo. Ele engoliu a resposta, virou as costas e voltou a se sentar com a criança para terminar o trabalho.
Quando Fernanda Diniz dava os seus shows, ela queria que Calel a consolasse.
Queria que ele a bajulasse. Só assim ela sentia alguma sensação de conquista, de ser necessária.
Mas Calel Lacerda era sempre aquela mesma pedra de gelo irredutível.
Calel puxou o filho para os braços, protegendo-o com o próprio corpo, e rugiu para Fernanda:
— Fernanda Diniz! Que porra de surto é esse?! O que a criança te fez?!
Ver a marca vermelha e nítida da mão estampada no rosto do próprio filho cortou o coração de Calel.
Fernanda Diniz estava completamente fora de si, gritando histericamente:
— Eu que estou surtando?! Vocês que estão todos contra mim! A sua irmã me odeia! A sua família inteira me odeia, vivem me menosprezando como nora! E agora até o filho que eu pari tem nojo da própria mãe!
— Eu me arrasto de tanto trabalhar naquela empresa! Vivo em coquetéis, jantares... e sabe o que ganho? Ninguém lá dentro me respeita! Acha que eu não sei o que falam de mim pelas costas? Principalmente aqueles funcionários velhos! Dizem que eu sou uma aproveitadora, que te dopei de cachaça para subir na sua cama! Que dei o golpe da barriga para virar a patroa, e que não tenho capacidade para liderar nada! Que inferno de vida é essa que eu estou vivendo?!
Aquelas palavras. Calel Lacerda já estava exausto de ouvi-las.
Ele não quis responder.
Na verdade, ele nem sequer olhou para Fernanda. Simplesmente pegou a criança no colo e caminhou para o quarto.
A porta bateu com violência.
Fernanda Diniz desabou no chão. Agarrando os próprios cabelos, soltou um grito rasgado e enlouquecido:
— Calel Lacerda! O que eu tenho de pior do que aquela maldita da Rebeca Ribeiro para você me tratar assim?!

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