Depois de sair da cafeteria, Helena Castro foi direto para o spa.
Quando o pacote completo de tratamentos acabou, já passava das onze da noite.
Ela chamou um carro pelo aplicativo, mas o motorista não chegava.
O jeito foi se encolher no casaco e esperar na calçada.
O outono na Cidade N não perdoava. O vento noturno cortava o rosto como se fosse uma navalha.
Enquanto batia os dentes, Helena Castro passava o tempo xingando Filipe Cruz mentalmente por ter roubado as horas preciosas dela.
Quase vinte minutos se passaram e nada do carro.
Ela abriu o aplicativo e mandou uma mensagem perguntando se o motorista estava chegando.
Demorou, mas o motorista ligou.
— Moça, mil desculpas! Eu briguei feio com a minha namorada e ela tá chorando muito. Tive que correr lá pra resolver e acabei esquecendo de cancelar a corrida. Você pode cancelar aí pra mim, por favor?
Helena Castro revirou os olhos.
Mas o motorista implorou, a voz cheia de desespero.
— Me perdoa mesmo, eu não fiz de propósito. É que ela tá grávida, os hormônios tão à flor da pele, então...
Quando ouviu a palavra grávida, o coração dela amoleceu.
— Tudo bem, deixa que eu cancelo.
O motorista quase chorou de alívio.
— Muito, muito obrigado!
Antes de desligar, Helena Castro não se aguentou e perguntou.
— Vocês ainda não são casados?
O motorista deu uma risada sem graça.
— Tá quase. A gente namora há cinco anos, desde a época da faculdade. Eu rodo de aplicativo de noite justamente pra juntar uma grana e dar uma vida boa pra ela e pro bebê. Quero casar logo.
— Casal que luta junto desde cedo é difícil de achar. Que vocês sejam muito felizes.
Ela mesma achou que soou melosa demais e desligou rápido.
O relógio da praça em frente tocou doze badaladas.
Meia-noite.
Um novo dia.
Tem gente que vai ver o mar, tem gente que recebe amor, e tem gente que passa a meia-noite congelando na rua sem rumo.
Helena Castro fungou, esfregou o nariz gelado e abriu o aplicativo de novo para chamar outro carro.
De repente, um Rolls-Royce deslizou pelo asfalto e parou perfeitamente na sua frente.
Helena Castro recuou um passo, surpresa, e espiou pela janela.
O vidro traseiro desceu devagar, revelando um rosto masculino de traços marcantes.
Edivaldo Serra, talvez por causa da bebida ou para não deixá-la desconfortável, passou o trajeto inteiro com os olhos fechados, descansando.
Os dois não trocaram uma única palavra.
Quando o carro finalmente encostou na frente do hotel dela, Helena Castro ficou num dilema, torcendo os dedos.
Ela tinha que agradecer, claro. Mas ele parecia tão exausto. Seria chato acordá-lo?
Enquanto ela ponderava, o homem que estava imóvel abriu os olhos.
Ele olhou pela janela, encarou a fachada do prédio e perguntou, do nada:
— Por que você vive hospedada em hotel?
A voz grave e repentina dele fez Helena Castro dar um pulinho de susto.
— É... pela natureza do meu trabalho. Ficar em hotel é mais prático. — ela explicou rapidamente.
Edivaldo Serra não fez mais perguntas, mas continuou olhando para o prédio com uma expressão pensativa.
Helena Castro aproveitou a deixa para agradecer pela carona e se despedir.
Edivaldo Serra apenas assentiu com a cabeça.
Ela planejava esperar o carro dele ir embora antes de entrar, mas o motorista não deu a partida.
Ela decidiu entrar primeiro, então.
Assim que ela passou pela porta giratória, o Rolls-Royce de Edivaldo Serra arrancou e sumiu na noite.

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