— Filipe Cruz... — Ela chamou cautelosamente, com a voz tão suave como se temesse perturbar algo.
O homem levantou lentamente a cabeça. Aqueles olhos que antes eram insondáveis, agora estavam assustadoramente vazios, cheios de luzes quebradas e uma escuridão impenetrável.
Ele olhou para ela, mas parecia estar olhando através dela para outra coisa, não havia foco no olhar, apenas um vasto deserto.
Seu rosto parecia muito antinatural.
Helena estendeu a mão para tocar e só então percebeu que ele estava com febre alta.
Ela tentou convencê-lo a ir ao hospital.
Mas ele a ignorou, continuando obstinadamente ajoelhado no pátio.
Helena olhou para ele naquele estado "miserável" e pensou que era apenas um protesto silencioso contra aquele casamento.
Ela serviu um copo de água silenciosamente e entregou a ele com cuidado, dizendo: — Se você quer o divórcio, nós podemos conversar.
Filipe levantou lentamente a cabeça, olhou para ela com um olhar muito complexo.
Mas no fim, não disse nada e continuou ajoelhado teimosamente.
Naquela época, ela não sabia a verdade e achava que ele a odiava, a odiava a ponto de não querer trocar nem mais uma palavra.
Sem saber que, naquele momento, dentro do coração daquele homem, estava caindo uma tempestade torrencial.
E essa chuva não tinha nada a ver com ela, mas começou por causa dela.
A velha senhora apertou a mão de Helena e a consolou: — Minha neta querida, isso não teve nada a ver com você, não se culpe em absoluto. Foi tudo um erro que o meu velho cometeu, por isso preciso colocar tudo de volta nos eixos antes de partir.
Ela acariciou os cabelos de Helena com carinho: — Aja como se nunca tivesse passado por esse casamento, como se nunca tivesse conhecido essa pessoa, e viva a vida que você quer feliz e contente. Eu estou deixando bens para você, justamente para que não precise mais viver dependendo dos outros, olhando para o rosto das pessoas, sem precisar ser submissa a ninguém, para que possa fazer o que quiser, sempre livre.
Na verdade, ela originalmente planejava levar esse segredo para o túmulo.
Mas... ela teve o seu lado egoísta.
Afinal, Filipe Cruz era seu neto; a palma e as costas da mão são ambas carne, como ela poderia não sentir pena dele?

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