Os seguranças e os policiais que estavam por perto nem tiveram tempo de impedir o que aconteceu.
Como aquela atitude completamente descontrolada de Tábata se enquadrava claramente como perturbação da ordem, os policiais não discutiram. Eles imobilizaram Tábata e a arrastaram até a viatura. Eles decidiram que eles precisavam levá‑la para a delegacia para que ela "esfriasse a cabeça".
Afinal, mesmo com a polícia presente, ela ainda tinha tido coragem de provocar daquele jeito. E, além disso, Diana já tinha alertado os agentes: Tábata tinha nacionalidade americana. Se a confusão escalasse até virar incidente diplomático, ninguém sairia bem na foto.
Tábata, no entanto, não demonstrava o menor sinal de arrependimento. Ela gritava, fora de si:
— Me soltem! Vocês vão me jogar de novo numa sala de interrogatório, né? Eu não tenho medo! Eu vou expor toda a podridão de vocês…
Aos poucos, os gritos estridentes dela desapareceram junto com a viatura.
Um dos policiais que ficaram na mansão se dirigiu aos presentes:
— Em um funeral, todo mundo deve seguir as normas de convivência e a legislação. É obrigação respeitar o falecido e a família do falecido. Se aparecer mais alguém causando esse tipo de tumulto, nós vamos levar direto pra delegacia, com detenção de no mínimo dez dias.
Os policiais também levaram os repórteres que tinham seguido Tábata filmando tudo. Eles justificaram que os jornalistas tinham gravado imagens do funeral sem autorização do dono da casa, violando a privacidade da família. Aquilo, afinal, acontecia dentro de uma mansão particular, em área de propriedade privada.
Ademir mandou funcionários limparem imediatamente a tinta vermelha que estava espalhada pelo caixão.
Os presentes começaram, aos poucos, a entender o que tinham acabado de presenciar.
— Aquela menina tão nova… deve ser filha de uma amante, né? Que destino desgraçado… — murmurou alguém.
Roberto retomou a fala que tinha sido interrompida:
— O morto merece respeito. Peço que ninguém fique julgando em excesso o que o Rui, ou melhor, o Cláudio, fez em vida. Eu coloco o meu nome em jogo para afirmar que as atitudes dele, inclusive em relação aos filhos fora do casamento, tinham contexto e explicação.
As conversas começaram, então, a perder força, até o salão ir voltando a um certo nível de calma.
Foi nesse momento que Ivo tentou sair de fininho.
De repente, uma voz ecoou:
— Ivo!
Ivo reconheceu que era Roberto chamando. Ele fingiu que não tinha escutado, mas foi barrado pelos seguranças na porta.
Ele não teve alternativa a não ser virar com um sorriso forçado:
— Tio, o senhor precisa de alguma coisa?
O rosto de Roberto estava carregado, sombrio. Ele apontou um dedo para Ivo e explodiu:
— Você trouxe a sua esposa aqui pra transformar o velório dos outros num circo, e agora quer ir embora como se nada tivesse acontecido?
Com Tábata detida, Ivo não queria, de jeito nenhum, ser arrastado junto. Ele tentou se esquivar:
— Ela é louca, tio. Como é que eu vou controlar o que ela faz?
A fúria de Roberto só aumentou:
— Os problemas antigos da nossa família eu até deixei passar. Mas você é membro da família Mendes, e ainda assim incentivou a sua mulher a fazer um papelão desses. Você acha mesmo que vai sair ileso?
Ivo deu de ombros, com aquele jeito debochado de sempre:
— E o que o senhor quer que eu faça, exatamente?
— Eu quero que você se ajoelhe diante do caixão e peça perdão batendo a cabeça no chão. — Respondeu Roberto, sem rodeios.
À esquerda e à direita, havia empresários influentes, políticos, gente de nome, homens e mulheres. Eram centenas, talvez milhares de olhos observando.
A exigência de se ajoelhar e pedir desculpas daquele jeito, em público, era uma humilhação que Ivo não estava disposto a engolir.
Ivo retrucou na hora:
Com os olhos injetados de sangue, Ivo se virou e saiu do salão.
A perturbação, enfim, tinha sido contida. A equipe do cerimonial limpou toda a tinta que conseguiu remover, e, nas partes em que a mancha não saía, a equipe substituiu as tampas pelo mesmo modelo, na mesma cor do caixão. A cerimônia pôde continuar.
Heitor se aproximou:
— Pai, mãe, obrigado por terem segurado as pontas.
Diana respondeu:
— Tábata já perdeu completamente o juízo. Ela teve coragem de jogar tinta até no caixão do próprio pai. Eu já estou vendo com os advogados: pelos crimes que ela cometeu aqui, com tanta reincidência e violência, dá pra pedir a deportação dela e a proibição permanente de entrada no país.
Patrícia se aproximou também. Quando ela ouviu o que Diana dizia, ela falou, emocionada:
— Obrigada por tudo que a senhora tem feito por mim. Se não fossem vocês dois, e como a minha mãe não sabe discutir nem se defender, ela teria saído muito machucada disso tudo.
Vanessa, normalmente, vivia em paz com o mundo e não tinha jeito para administrar conflitos. Ela só mostrava a força quando o assunto envolvia algo que ela considerava essencial, sobretudo quando era para proteger os filhos.
Diana, ao contrário, tinha um temperamento firme e nunca teve medo de confronto.
— Menina boba, não precisa me agradecer. — Disse Diana.
Mesmo assim, por mais que Diana não aceitasse agradecimentos, Patrícia sabia que Roberto e Diana faziam tudo aquilo porque se importavam com Heitor e, por consequência, com ela também.
Ao meio‑dia, o corpo foi sepultado no cemitério.
À noite, Patrícia e Heitor ficaram na casa da família Vieira para descansar. Depois de tantos dias de correria, Heitor se sentia exausto. Ele tomou banho, subiu na cama e, por hábito, puxou Patrícia para os braços dele. Foi então que ele reparou nas marcas discretas de lágrimas secas no rosto dela.
Ele passou a ponta dos dedos com delicadeza pela pele úmida da bochecha e perguntou:
— Por que você estava chorando?

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