O ar lá em cima estava mais rarefeito, e, quanto mais Heitor se aproximava do ponto marcado no mapa, mais ele sentia o peito apertar e a respiração falhar de nervoso.
Mesmo assim, a saudade de Patrícia falava mais alto. Ele queria tanto ver a esposa que até os cochilos rápidos que ele tirava no banco do carro eram povoados pela sombra dela, pela voz dela.
Quando ele finalmente chegou ao local indicado pelo rastreamento, ele apertou com força a coronha da arma dentro do bolso do casaco. Mas, sob a luz fraca da lanterna, o que ele encontrou foi apenas um chão grosso de folhas secas e árvores nuas, retorcidas.
— Como assim?
Na hora em que ele desbloqueou o celular, ele sentiu o peso da palavra "desespero" cair inteiro sobre ele. Não havia nenhum sinal. Nada. O aparelho estava mudo. Então ele começou a entender: o grupo de Jacó não estava parado ali. Aquela era apenas a última faixa da estrada em que o celular de Patrícia ainda tinha conseguido sinal. Dali para cima, a montanha engolia qualquer conexão.
Heitor se viu, de repente, sem rumo. Ele não conhecia aquela serra, não tinha referência alguma. O celular não pegava rede, não pegava internet, não apontava nada.
A única certeza que ele tinha era essa: havia uma grande área da montanha totalmente cega para o sinal. E eles estavam em algum ponto dentro daquele miolo escuro. Enquanto o carro de Jacó e o de Patrícia não saíssem daquele perímetro, o rastreamento só mostraria aquele mesmo ponto estático.
Ele teria que seguir a pé, subindo mais, entrando cada vez mais fundo na mata. Se tivesse sorte, ele esbarraria neles. Se não tivesse, ele passaria raspando e deixaria a chance escapar.
Heitor não quis continuar de carro. O barulho do motor sobre aquele tapete de folhas podia denunciar a presença dele a qualquer momento. Se ele desse de frente com os sequestradores, eles teriam vantagem.
Ele se encolheu melhor dentro do casaco grosso. Com uma mão enluvada, ele segurou com firmeza a arma dentro do bolso, com a outra, ele agarrou a lanterna e começou a avançar pela mata fechada. Em volta, as sombras se mexiam com o vento, os galhos rangiam, o frio cortava. O cenário era de filme de terror.
...
Patrícia acordou. Ela não tinha dormido bem.
O motorhome tinha parado depois de escurecer. Ela tinha sido trancada lá dentro. Os bandidos tinham usado o próprio celular para acionar o sistema remoto e travar as portas, deixando só uma janelinha estreita, da largura da palma da mão, aberta para ventilação.
Patrícia percebeu que, sem Isaac por perto, a dinâmica entre os três homens era outra. Sem aquele elemento instável, os três se davam muito bem, como se fossem parceiros antigos.
Felipe e Gustavo tinham montado uma churrasqueira improvisada do lado de fora e começaram a assar carne juntos.
Jacó levou um prato para ela, com pedaços de carne bovina e batata assada. Ela estava faminta. Orgulho não enchia estômago. Ela comeu, bebeu um pouco de água do reservatório do motorhome, lavou o rosto ali mesmo e acabou se deitando antes deles.
Meio sonolenta, ela ainda ouviu o barulho dos colchões sendo estendidos na área externa do veículo. Aqueles homens não eram nada exigentes. Eles aceitavam dormir ali mesmo, no puxadinho adaptado como varanda. Ninguém parecia incomodado com o fato de que Patrícia sempre acabava ficando com a cama mais confortável, com a comida quente, com os cuidados básicos. Não havia ciúme daquele lado.
De madrugada, Patrícia abriu os olhos de repente.
Ela escorregou devagar para fora da cama, pisando macio no chão, e foi testar a maçaneta da porta. Fechada. Ela tentou outra. Trancada. Tentou todas, uma a uma. Nada. Mas, por sorte, a janela de ventilação tinha ficado destravada. Ela a abriu com cuidado e começou a se espremer por ali.
Ela se moveu com prudência, tentando não se chocar contra nada, não provocar nenhum barulho mais forte. Depois de alguns instantes forçando o corpo, ela percebeu que a passagem dava para o terraço do motorhome.
Aquela varanda improvisada era enorme, quase como um segundo andar do veículo. Sobre o piso, havia colchões arrumados de modo improvisado, cobertos com cobertores e edredons. Deitados ali, estavam Jacó e os outros.
Patrícia ouviu claramente o ronco de um deles, misturado a uma respiração calma e ritmada dos demais.
Toda a área externa era coberta por um grande toldo, como um desses usados em acampamento, feito de tecido Oxford reforçado. Patrícia pensou que, se era uma estrutura parecida com barraca, então precisava ser retrátil, desmontável. Se precisava ser desmontada, havia algum ponto de encaixe: ou velcro, ou fivelas, ou um zíper.

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