Lorena Azevedo
O barulho da chaleira apitando foi o que me trouxe de volta à realidade.
Mais uma manhã.
Mais uma tentativa.
Mais um dia fingindo que estava tudo bem.
Desliguei o fogo e despejei a água no coador improvisado, com o pó de café barato escorrendo devagar. O cheiro forte invadiu a pequena cozinha da Tati, misturado com o aroma de pão de ontem aquecido na frigideira.
Não era muito.
Mas era o que eu podia dar.
Miguel entrou na cozinha esfregando os olhos, com o cabelo bagunçado e a camiseta do Homem-Aranha torta no corpo magrinho.
— Bom dia, mamãe... — ele disse, bocejando.
Meu coração apertou.
— Bom dia, meu amor. Dormiu bem?
Ele assentiu com a cabeça e se sentou à mesa de plástico.
Eu servi o café no copo azul dele, coloquei leite, um pouco de açúcar, e empurrei o pão com margarina na direção dele.
— Hoje você vai ficar com a Tati, tá? A mamãe vai dar mais uma volta.
— Vai procurar trabalho?
— Vou sim. E hoje eu tenho um bom pressentimento.
Mentira.
Não tinha nada. Nem otimismo, nem chance, nem conexão de internet pra olhar os classificados.
Só tinha o currículo impresso em folha amassada, uma bolsa emprestada e um vestido velho demais pra parecer novo.
Mas tinha que tentar.
Por ele.
— Quando a gente vai ter uma casa de novo, mamãe?
A pergunta veio com o pão ainda na boca.
Miguel disse com inocência, mas aquilo me atravessou como faca.
Sorri, tentando parecer forte.
— Logo, meu amor. A mamãe só precisa de um trabalho. Depois, tudo vai melhorar.
Ele assentiu e continuou comendo.
Pelo menos ele acreditava em mim.
Isso já bastava.
Depois do café, dei banho nele, deixei as roupinhas separadas e esperei Tati acordar pra ficar com ele. A casa era pequena, dois quartos apertados, mas ela me deu o melhor deles. Dormia no sofá sem reclamar.
A porta do quarto dela se abriu e a doida apareceu com os cabelos loiros desgrenhados, vestida com uma camiseta larga e um tapa-olho de dormir com estampa de "Divando".
— Já vai sair, mulher? Nem deixou eu te ajudar a escolher o look da vitória!
— Não tem look que faça milagre nesse currículo aqui — brinquei, levantando o papel desgastado.
Ela bocejou e piscou:
— Você ainda vai calar a boca de todo mundo que duvidou de você, Lorena. Principalmente aquele babaca do Paulo.
Engoli em seco.
Só de ouvir o nome dele, meus dedos fecharam involuntariamente.
— Vou tentar não voltar muito tarde — disse, pegando a bolsa.
Tati segurou minha mão antes que eu saísse:
— Se nada der certo hoje... a gente chora junto, toma vinho barato e xinga o mundo. Mas você não vai desistir. Nunca mais.
Balancei a cabeça.
Ela tinha razão.
Fechei a porta atrás de mim e desci as escadas do prédio com o coração apertado, mas a postura firme.
Eu tinha que parecer alguém que merecia uma chance.
Mesmo que por dentro, eu só quisesse me esconder.
09:12 da manhã – Primeira tentativa
A primeira empresa era uma loja de roupas em um mini shopping popular.
Entreguei o currículo, fui recebida por uma moça apática que nem olhou na minha cara.
— A gente não tá contratando no momento. Pode deixar aqui, mas não prometo nada.
— Tudo bem. Obrigada.
Segui em frente.
10:03 – Segunda tentativa
Uma cafeteria nova, decorada como aquelas de filme.
A dona, uma mulher simpática chamada Marta, olhou meu currículo com mais atenção.
— Você ficou sete anos sem trabalhar?
— Sim. Eu me dediquei ao meu filho e ao casamento nesse período.
Ela assentiu devagar, como quem já sabia o final da história.
— Vou ser sincera, Lorena... eu admiro sua coragem. Mas hoje em dia, tudo é experiência.
Tem gente demais, e vagas de menos. Mas se surgir alguma coisa, te ligo, tá?
— Tá.

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