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"Segredos Ardentes": Um fazendeiro proibido romance Capítulo 2

Lorena Azevedo

O barulho da chaleira apitando foi o que me trouxe de volta à realidade.

Mais uma manhã.

Mais uma tentativa.

Mais um dia fingindo que estava tudo bem.

Desliguei o fogo e despejei a água no coador improvisado, com o pó de café barato escorrendo devagar. O cheiro forte invadiu a pequena cozinha da Tati, misturado com o aroma de pão de ontem aquecido na frigideira.

Não era muito.

Mas era o que eu podia dar.

Miguel entrou na cozinha esfregando os olhos, com o cabelo bagunçado e a camiseta do Homem-Aranha torta no corpo magrinho.

— Bom dia, mamãe... — ele disse, bocejando.

Meu coração apertou.

— Bom dia, meu amor. Dormiu bem?

Ele assentiu com a cabeça e se sentou à mesa de plástico.

Eu servi o café no copo azul dele, coloquei leite, um pouco de açúcar, e empurrei o pão com margarina na direção dele.

— Hoje você vai ficar com a Tati, tá? A mamãe vai dar mais uma volta.

— Vai procurar trabalho?

— Vou sim. E hoje eu tenho um bom pressentimento.

Mentira.

Não tinha nada. Nem otimismo, nem chance, nem conexão de internet pra olhar os classificados.

Só tinha o currículo impresso em folha amassada, uma bolsa emprestada e um vestido velho demais pra parecer novo.

Mas tinha que tentar.

Por ele.

— Quando a gente vai ter uma casa de novo, mamãe?

A pergunta veio com o pão ainda na boca.

Miguel disse com inocência, mas aquilo me atravessou como faca.

Sorri, tentando parecer forte.

— Logo, meu amor. A mamãe só precisa de um trabalho. Depois, tudo vai melhorar.

Ele assentiu e continuou comendo.

Pelo menos ele acreditava em mim.

Isso já bastava.

Depois do café, dei banho nele, deixei as roupinhas separadas e esperei Tati acordar pra ficar com ele. A casa era pequena, dois quartos apertados, mas ela me deu o melhor deles. Dormia no sofá sem reclamar.

A porta do quarto dela se abriu e a doida apareceu com os cabelos loiros desgrenhados, vestida com uma camiseta larga e um tapa-olho de dormir com estampa de "Divando".

— Já vai sair, mulher? Nem deixou eu te ajudar a escolher o look da vitória!

— Não tem look que faça milagre nesse currículo aqui — brinquei, levantando o papel desgastado.

Ela bocejou e piscou:

— Você ainda vai calar a boca de todo mundo que duvidou de você, Lorena. Principalmente aquele babaca do Paulo.

Engoli em seco.

Só de ouvir o nome dele, meus dedos fecharam involuntariamente.

— Vou tentar não voltar muito tarde — disse, pegando a bolsa.

Tati segurou minha mão antes que eu saísse:

— Se nada der certo hoje... a gente chora junto, toma vinho barato e xinga o mundo. Mas você não vai desistir. Nunca mais.

Balancei a cabeça.

Ela tinha razão.

Fechei a porta atrás de mim e desci as escadas do prédio com o coração apertado, mas a postura firme.

Eu tinha que parecer alguém que merecia uma chance.

Mesmo que por dentro, eu só quisesse me esconder.

09:12 da manhã – Primeira tentativa

A primeira empresa era uma loja de roupas em um mini shopping popular.

Entreguei o currículo, fui recebida por uma moça apática que nem olhou na minha cara.

— A gente não tá contratando no momento. Pode deixar aqui, mas não prometo nada.

— Tudo bem. Obrigada.

Segui em frente.

10:03 – Segunda tentativa

Uma cafeteria nova, decorada como aquelas de filme.

A dona, uma mulher simpática chamada Marta, olhou meu currículo com mais atenção.

— Você ficou sete anos sem trabalhar?

— Sim. Eu me dediquei ao meu filho e ao casamento nesse período.

Ela assentiu devagar, como quem já sabia o final da história.

— Vou ser sincera, Lorena... eu admiro sua coragem. Mas hoje em dia, tudo é experiência.

Tem gente demais, e vagas de menos. Mas se surgir alguma coisa, te ligo, tá?

— Tá.

Capítulo 2 - Currículo na Mão, Dignidade na Alma e Nenhuma Chance na Porta 1

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