Rafael Ventura
O sol estava rachando.
A camisa já encharcada.
A bota afundando na lama.
E eu tentando consertar a porra de um cano quebrado perto da cocheira antes que inundasse metade do galpão.
Mais um dia na fazenda.
Mais suor.
Mais serviço.
Mais tudo que me mantinha longe da cidade e do caos.
Pelo menos aqui, eu tinha paz.
Ou achava que tinha.
Até escutar a voz estridente que fazia minha nuca arrepiar — e não era de tesão.
— Rafael!
— Que porra... — resmunguei, erguendo o olhar.
Lá estava ela.
Melissa.
Vestido branco justinho, salto fino atolando na lama, óculos escuros Chanel e uma cara de nojo como se tivesse entrado num chiqueiro.
— Que merda você tá fazendo enfiado aí, Rafael?
— Trabalhando. O que mais parece?
Ela tapou o nariz, franzindo a testa.
— Credo! Você tá **ensopado de suor, com cheiro de mato, de cavalo, de... de bicho! Olha pra você, tá imundo!
Meus olhos estreitaram.
A paciência, já pouca, evaporou.
— Esse cheiro aqui é de quem bota comida nessa mesa.
De quem sustenta essa fazenda.
De quem não vive de filtro do I*******m e saladinha sem sal.
Ela revirou os olhos e cruzou os braços:
— Não precisava falar grosso, Rafael. Só tô dizendo que você podia pelo menos tomar um banho antes de me receber.
— Não pedi visita.
— Sou sua noiva.
— É?
— Sou, ué.
— Pois tá agindo como fiscal sanitária.
Ela fez uma careta, segurando a bolsa como se fosse escudo.
— Vai tomar banho. Por favor. Nem consigo te abraçar assim.
— Ótimo.
Porque eu não quero abraço.
Ela arregalou os olhos.
— O que tá acontecendo com você, Rafael?
— Nada. Tô do mesmo jeito de sempre. Só mais cansado.
Mais sujo.
Mais irritado.
E com cada vez menos saco pra esse teatrinho de casal perfeito que nunca existiu.
Ela bufou.
— Você tem obrigação de me tratar bem.
— Eu não tenho obrigação de porra nenhuma, Melissa.
Quer que eu vá tomar banho? Beleza. Vou.
Mas não é pra você.
É pra mim. Porque até meu suor tem mais dignidade do que essa tua arrogância.
Ela arregalou os olhos, chocada, mas não teve resposta.
Virei as costas e fui em direção à sede.
Tirei a camisa suada no caminho.
Lama escorrendo na pele.
Pulso latejando de raiva.
Mas sabe o que era pior?
Enquanto a Melissa falava merda...
eu só conseguia pensar naquela outra mulher.
Na que me cheirou suado.
Me lambeu suado.
Gemendo que meu cheiro era um castigo gostoso.
E de repente...
eu não queria só banho.
Eu queria esquecer.
Mas o corpo não deixava.
(***)
A água do banho escorria ainda quente quando saí do box.
Me enrolei na toalha, passei a mão nos cabelos molhados e olhei meu reflexo no espelho embaçado.
O rosto cansado.
A mandíbula travada.
O corpo marcado por horas de lida e por uma noite que ainda queimava na memória.
Aquela mulher.
A boca dela.
O jeito que gemeu meu nome sem nem se importar com o meu sobrenome.
Fechei os olhos.
Tentei afastar.
Falhei.
Saí do banheiro.
A porta do quarto tava entreaberta.
E ela entrou. Melissa.
Saltos batendo no piso.
Perfume forte.
Vestido justo.
E uma cara que misturava superioridade com carência.
— Agora sim — ela disse, se aproximando com um sorrisinho. — Com cheiro de homem civilizado, e não daquele bicho do mato que eu encontrei lá fora.
Fiquei em silêncio, parado no meio do quarto, só com a toalha na cintura.
Ela parou na minha frente.
Subiu as mãos pelo meu peitoral ainda úmido.
Deslizou os dedos devagar, provocando.
Se encostou em mim.
— Sabe que eu adoro esse seu corpo bruto, né? — ela sussurrou. — Mas assim, limpo, cheiroso... dá até mais vontade.
Inclinei o rosto pra ela, bem perto da boca, os olhos cravados nos dela.
E soltei:
— Engraçado...
porque quando eu tô te fodendo como um bicho do mato, você não reclama, né, Melissa?
Ela travou.
O sorriso congelou.
— Você geme, grita, arranha minhas costas...
Me pede mais forte, mais fundo, mais selvagem.
Mas basta eu suar na fazenda, e você faz cara de nojo.
Ela recuou meio passo, mas manteve a pose.
— Eu só acho que você podia equilibrar. Ser bruto quando transa, mas apresentável no resto do tempo.
— E eu acho que você podia parar de querer me mudar pra caber no seu mundinho de plástico.
Me afastei.
Fui até a cômoda, peguei uma cueca e uma calça jeans e vesti com pressa.
Nem olhei pra ela.
— Rafael... eu só quero que a gente se dê bem.
— A gente nunca vai se dar bem, Melissa.
— Por quê?
Virei de frente.



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