Lorena Azevedo
A porta mal tinha fechado atrás de mim, e a Tati já tava plantada na cozinha, de braços cruzados e cara de quem viu o diabo passando de vestido justo.
— Onde você se meteu ontem na boate, hein?! — ela começou, com a voz já em modo escândalo. — Você saiu pra ir no banheiro e NÃO VOLTOU! Me deixou sozinha lá no meio daquele monte de gente bêbada, música alta, homem se esfregando, e agora volta SEIS DA MANHÃ?!
— Tati...
— NÃO ME DIGA QUE FOI TRANSAR... — ela apertou os olhos, apontando o dedo como se estivesse prestes a me exorcizar. — Tu transou, Lorena? TU. TRANSOU.
Eu respirei fundo.
E me preparei pra confissão mais suada e safada da minha vida.
Sentei.
Passei a mão no cabelo e confessei:
— Eu transei com um cara.
— Com quantos?
— Um.
— Mas parecia três pela tua cara. COMO FOI?
— Foi... intenso.
— Intenso tipo o quê? Selinho e abraço ou soco na parede e puxada de cabelo?
Abaixei o rosto.
Ela arregalou os olhos.
— NÃO! LORENA DO CÉU!
— Tati...
— Quem era esse homem? Pelo amor de Deus, me dá um nome!
— Rafael. Rafael Ventura.
Tati arregalou tanto os olhos que achei que iam pular da cara.
— RAFAEL VENTURA???
— É. Por quê?
— LORENA, PELO AMOR DE DEUS, esse nome não te soa familiar?
— Só me soou gostoso quando ele gemeu na minha nuca. Por quê?
— Rafael Ventura é o fazendeiro mais rico do Brasil! O dono das terras de meio estado! O ogro do cerrado! O bilionário que odeia a cidade e anda de cavalo como se tivesse nascido no lombo de um!
Travei.
Pisquei.
— Não...
— SIM!
— Tati, esse homem usava jeans rasgado e camisa aberta. Não parecia bilionário. Parecia... pecado.
— Amiga... pecado é o sobrenome dele.
E agora tu me explica: como é que tu foi parar na cama DO HOMEM MAIS PERIGOSAMENTE GOSTOSO DO PAÍS e não pediu nem uma selfie?!
— Porque eu tava ocupada...
— Ah, não, não termina essa frase, senão eu gozo no teu lugar!
Ela gritou. Eu ri. Depois tapei o rosto.
— Eu fui louca. Não sei o que me deu. Eu nem contei meu nome pra ele.
— Não acredito, que você não disse o seu nome?
— Não. E mesmo que disse, acho que não lembraria. Homem como ele não lembra de mulher como eu.
— Cala essa boca, Lorena!
— É verdade, Tati. Olha pra mim. Mãe solteira, que estragou o próprio casamento, sem glamour. Ele deve viver cercado de mulher feita à base de bisturi, salto e grana. Eu fui só...
uma noite.
Ela se calou. Me olhou com carinho.
Mas não disse nada.
Levantei, fui até o fogão e comecei a preparar café.
Enquanto o pó fervia, encostei na pia e respirei fundo.
O cheiro de café não disfarçava o cheiro dele na minha pele.
Amadeirado. Quente. Masculino.
Um castigo.
— Só sei que o cheiro de homem é um castigo — murmurei.
— Um castigo bom, né? — Tati riu.
— Um castigo que eu nunca mais vou repetir. Graças a Deus.
08:00 – Primeiro dia de trabalho
Cheguei na cafeteria de camisa branca, calça preta e cabelo preso num coque improvisado.
A dona, Marta, me recebeu com um sorriso:
— Bem-vinda, Lorena. Hoje começa teu recomeço.
— Obrigada.
De verdade.
E foi.
O dia foi leve.
Atendi gente, servi café, limpei mesa, sorri até doer.
Aos poucos, fui lembrando que eu podia ser útil, capaz, viva.
E não só... desejável.
Mas, vez ou outra...
A imagem voltava.
A boca dele nos meus seios.
A voz rouca no meu ouvido.
Os olhos em brasa.
O corpo pressionando o meu.



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