Rafael Ventura
Acordei com a cabeça latejando e o lençol embolado nas pernas.
Olhei pro lado.
Nada.
Ninguém.
A cama fria.
Passei a mão pelo travesseiro.
Ainda tinha o cheiro dela.
Mistura de perfume doce, suor e safadeza.
Mas ela já tinha ido embora.
Sem dizer o nome.
Sem um bilhete.
Sem nem deixar um rastro.
Me sentei na cama, passei a mão no rosto e respirei fundo.
O corpo doía.
Mas era aquela dor boa. Aquela que só vem depois de uma foda fora da curva.
E aquela mulher...
Porra.
Aquilo não foi sexo.
Foi exorcismo.
Peguei o telefone do quarto e disquei zero.
— Recepção, bom dia!
— Bom dia. A mulher que estava comigo, sabe que horas ela saiu?
— Ah... sim, senhor Ventura. Ela saiu por volta das cinco da manhã. Sozinha. Não quis chamar táxi. Disse que ia caminhar um pouco.
— Tá. Obrigado.
Desliguei.
Caminhar?
A essa hora?
Sozinha?
Taquei o telefone de volta no gancho e fui pro banheiro.
Entrei debaixo da água quente, esfregando o corpo com força, como se pudesse tirar da pele as marcas que ela deixou com a boca.
Mas não saía.
Nem o cheiro.
Nem o gosto.
Nem a porra da vontade.
Cada vez que fechava os olhos, via aquele batom vermelho borrado.
A boca dela engolindo cada centímetro meu.
Os gemidos.
O jeito que ela rebolava em cima de mim, como se me conhecesse há anos.
E o pior?
A ausência.
Ela me deixou ali.
Feito um idiota.
Querendo mais.
Sai do banho, enxugando o cabelo com raiva.
Ainda pelado, escutei o celular vibrar em cima da mesinha.
Melissa.
Suspirei. Atendi.
Arrependi no mesmo segundo.
— Até que enfim! Onde você se enfiou ontem? Saiu do jantar sem dar tchau, me deixou lá como uma idiota!
— Não tava com saco.
— E o que foi mais importante do que um jantar com investidores?
— Uma garrafa de uísque e o silêncio.
— Você tá me tirando?
— Melissa, não começa.
— Onde você tá?
— ...
— Rafael?! Onde. Você. Tá.
— Dormindo.
— Sozinho?
— ...
— Você vai voltar pro mato, é isso?
— Tô indo agora.
Ela bufou do outro lado da linha.
— Um dia você vai perceber que tá perdendo tudo por essa vida de bicho do mato.
— Talvez. Mas pelo menos no mato ninguém enche o meu saco logo de manhã.
Desliguei.
Joguei o celular na cama, vesti a calça jeans, amarrei as botas, e encarei meu reflexo no espelho.
— Rafael Ventura...
Tu tá fodido, irmão.
Porque eu sabia.
Aquela mulher.
A desconhecida.
Do batom vermelho.
Do olhar de guerra.
Do corpo faminto...
Ela tinha mexido em alguma coisa que eu escondia há anos.
E agora, mesmo voltando pro mato...
Eu sabia que a porra da cidade tinha deixado uma marca.
E ela tinha nome.


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