Cap.1
Ponto de Vista: Katleia
O silêncio da mansão da Ponte, após a euforia do casamento, era uma coisa espessa e pesada. Não era um silêncio pacífico, mas aquele que vem depois da tempestade, carregado do eco dos risos e do rumor das festas que já se foram.
Naquele vazio, cada som se amplificava. O rangido da madeira, o zumbido distante da cidade, o bater do meu próprio coração — um tambor descompassado contra as costelas.
Eu estava no meu novo quarto, no andar de cima. Selene dissera que era o mais ensolarado, com vista para os jardins que ainda seriam plantados.
Agora, porém, a noite havia engolido a paisagem, transformando as janelas em espelhos negros onde eu só via meu próprio reflexo: uma garota pálida, de olhos arregalados, sentada no chão, encostada na cama, como se o móvel fosse um escudo contra o mundo lá fora.
O celular era um peso quente e ameaçador na minha palma. A tela, que havia escurecido, era um portal para um pesadelo que teimava em se fazer real.
Minutos antes, ele brilhara com a notificação de um e-mail.
O remetente era um emaranhado de letras e números sem sentido, mas eu não precisava de nome. Meu corpo já sabia.
Um frio começou na base da espinha e se espalhou como gelo pelas veias. O estômago contraiu-se.
Era dele. Meu hater.
Por dias, ele havia sido uma presença digital, um espectro feito de palavras monstruosas. Criticava cada romance que eu publicava como Kat X, dissecava minha dor com um prazer perverso, chamava de teatro de trauma as histórias que eram os únicos fios que me impediam de desmoronar de vez. Agora estava me fazendo desmoronar e querer desistir de tudo… mas, por mim mesma e pelas meninas, eu sabia que não devia deixar que tudo isso me influenciasse. Mas como?
Algo mudara nos últimos dias. A perseguição saíra dos comentários anônimos e invadira minha privacidade. Ele sabia detalhes. Coisas que não estavam nos contos. Coisas que ninguém sabia.
E o e-mail de hoje… era diferente.
Não era apenas ódio. Era uma proposta — novamente uma proposta — mas até mesmo suas propostas eram ameaçadoras.
“Kat X, suas mãos ainda são valiosas para você, certo? Me denunciar não vai trazer nenhum benefício. Podemos assinar um acordo de paz e você nunca mais vai saber de mim.
Mas, se não aceitar, tenho tantas formas de garantir seu silêncio. Posso descobrir seu endereço, quem é você.”
O ar faltou. O quarto, amplo e belo, estreitou-se de repente.
As paredes se aproximaram. Era como se ele estivesse ali, no escuro atrás do guarda-roupa, dentro do espelho negro da janela, respirando o mesmo ar envenenado pelo meu medo. Ofegante, deixei o celular escorregar no tapete fofo, como se ele queimasse.
Foi quando o telefone do quarto tocou.
Um som agudo, estridente, rasgando o silêncio opressivo.
Meu corpo deu um salto involuntário.
Atendi com a mão trêmula.
— Alô?
Silêncio. Apenas a respiração de alguém do outro lado. Baixa, constante. Intencional.
— Quem… quem é?
Nada. Apenas aquela respiração fantasmagórica. E então, um clique seco. Soou estranhamente familiar — e, do fundo do meu coração, eu esperava que não fosse.
A linha morta.
Foi a gota. A última barreira que segurava o pânico em um canto controlado da minha mente se rompeu. Deslizei do chão para o carpete, encolhendo-me, abraçando os joelhos contra o peito.
A posição era infantil, de proteção. A mesma que eu adotava nos piores momentos, no quarto escuro da casa da minha mãe, quando os passos no corredor anunciavam horas de terror.
O cheiro imaginário de álcool barato e cigarro invadiu minhas narinas — um fantasma sensorial do passado.
Ele não pode me encontrar. Ele não pode saber. Ele está morto. Ele sumiu.
Mas a lógica não importava.
O medo era mais forte, como um animal antigo e familiar rosnando em meu ouvido.
A porta abriu-se com um leve ruído.
— Kat? Tudo bem? Ouvi o telefone… — Era a voz suave de Selene.
Ela parou na entrada. Eu não conseguia levantar a cabeça, mas senti seu olhar sobre mim — uma mistura de preocupação e compreensão imediata. Ela sabia ler os sinais. Todas elas sabiam exatamente como eu ficava e por que eu estava com aquela reação. Elas participaram da minha vergonha também… e me acolheram.
— Katleia.
A voz dela se aproximou. Senti o toque leve de sua mão no meu ombro.
Eu me encolhi mais.
— T-tudo bem — forcei as palavras para fora, a voz um fio embargado. — Só… uma ligação errada. Me assustou.
Era uma mentira frágil, transparente como vidro. Ela não acreditou. Sua mão ficou ali, um ponto quente e sólido em meio ao frio que me consumia.
— Você está tremendo — disse ela, sem pressionar. Sabia que pressionar era pior. Era como lidar com um animal ferido.
— É só o frio — menti de novo, engolindo o gosto amargo do medo. — Vou me deitar. Amanhã passa.
Ela hesitou, observando-me, sem perguntas, sem insistência. Ela sabia exatamente o que eu estava passando.
Com um último e suave aperto no meu ombro, ela se levantou. Era óbvio que estava ansiosa. Já perdemos as contas de quantas vezes eu fui parar no hospital por causa dessas crises no passado, e ver isso voltar… com certeza não deixaria ninguém em paz. Mesmo que eu fingisse, elas não ficariam tranquilas.
Em pensar que eu só vim morar com elas — mesmo ainda podendo ficar no orfanato — por causa dos cuidados e da observação constante delas… caso contrário, eu nem mais viva estaria.
— Estou aqui, Kat. Sempre. Só me chamar, tá?
Suas palavras eram um calmante, mesmo que eu não conseguisse acreditar plenamente nelas. Ninguém podia estar sempre ali. As pessoas iam embora em algum momento. E a hora de Selene já estava chegando, agora que ela se casou. Assim… uma por uma vai se casando, e eu vou, com certeza, ficando para trás até estar completamente sozinha.
Ela saiu, fechando a porta com um clique silencioso. O alívio por ficar sozinha foi imediato e, ao mesmo tempo, aterrorizante. A solidão era minha inimiga e minha única amiga.
Foi então que as vozes começaram a subir pela escada.
A princípio, eram murmúrios. Depois, ganharam tom, contorno. Selene e Adon. Estavam no hall de entrada, logo abaixo.
— Selene, não começa. As malas estão no carro. O avião decola em três horas. — A voz de Adon era tensa, a frustração evidente.
— Adon, eu não posso ir. Olha para ela! Ela está em pânico de novo. Eu não posso abandonar uma amiga que precisa da minha ajuda! — A voz de Selene era um sussurro furioso, carregado de angústia.
— Eu sei! Por Deus, Selene, eu sei! Mas nós acabamos de nos casar! Eu esperei uma lua de mel com você desde… desde sempre! Já nem aguento mais ficar longe de você, e agora você quer adiar porque…
— Porque ela precisa de mim!
— E eu preciso de você! — A voz dele subiu, um rugido abafado. — Você… nós acabamos de nos casar. Eu quero você. Seu corpo, seu tempo, sua atenção. Só nossa. Em outro país, longe de tudo isso. Só nós dois. É pedir demais?
Um silêncio pesado. Imaginei o rosto de Selene, corando, constrangida pela intensidade dele, pela crueza do desejo misturado à mágoa.
Outra voz entrou, seca, irônica, inconfundível. Átila.
— Uma vez maníaco, sempre maníaco, Adon. Controla o volume. Todo mundo sabe que você só está pensando em uma coisa agora.
— Cala a boca. Selene me deixou de castigo por muito tempo, e isso não é justo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!