Cap.95
POV: Selene
A escuridão não foi pacífica. Impedia—me de me manter lúcida, carregada pelo cheiro químico acre que ainda queimava minhas narinas.
Eu não caí no sono — fui apagada. Como uma luz que alguém simplesmente desliga. Mas o desespero me fez lutar.
A consciência voltou aos poucos, primeiro como uma dor latejante nas têmporas, depois como uma sensação de desorientação completa.
Meus olhos arderam ao tentar se abrir contra uma luz agressiva — não branca, mas de um vermelho pulsante, cortando a penumbra em ritmos irregulares.
Eu estava deitada em algo macio. Um colchão.
O movimento de me sentar foi lento, dolorido, cada músculo protestando.
A sala era estranha. Não era um cativeiro típico. Parecia… um quarto de hotel decadente transformado para atividades perigosas.
As paredes escuras, a iluminação vinda de fitas de LED vermelhas coladas no teto e no chão, criavam um ambiente claustrofóbico e sinistro — como o backstage de uma boate de submundo.
O ar estava carregado de perfume barato e mofo.
Meu vestido vermelho, agora amarrotado e sujo da calçada, era grotesco naquele cenário.
E foi então que meu olhar, percorrendo o ambiente com pânico crescente, encontrou ele.
Sentado na ponta da cama, perto dos meus pés descalços, com um sorriso que era uma distorção maligna de qualquer coisa que eu já tivesse visto nele antes.
Mathias.
Ele estava de volta mesmo… ou era uma alucinação, já que essa era uma cena que eu vivi antes?
O ar saiu dos meus pulmões num golpe seco. Meu coração parou — e depois disparou, batendo contra minhas costelas como um pássaro aterrorizado.
— M-Mathias? — gaguejei, o nome saindo como um sopro incrédulo. — O que… o que você está fazendo aqui?
A pergunta era idiota. Ingênua.
Mas era tudo que meu cérebro em choque conseguia formular. Ele estava desaparecido.
Lembro que tinha sido arrastado por Adon e levado embora… pensei que nunca mais veria ele.
Ele não respondeu com palavras.
Seu movimento foi rápido. A mão dele se ergueu e desceu com força brutal, acertando meu rosto com um estalo seco que ecoou pelo quarto apertado.
A dor foi instantânea, aguda, seguida de um calor que latejou por toda a minha bochecha. A força do golpe me fez tombar de lado no colchão, a visão escurecendo por um segundo.
— Estava esperando que eu estivesse morto, é? — a voz dele chegou até mim, rouca e cheia de veneno. — Só porque aquele seu guarda-costas de merda me prendeu? Achou que era fácil se livrar de mim, sua putinha?
Encolhi-me, levando as mãos ao rosto ardente.
As lágrimas, desta vez, eram de dor física e de um desespero que começava a tomar conta de tudo.
Massageei a bochecha, tentando dissipar a ardência. Tentando me ancorar em algo que não fosse o pânico e a impotência que me engoliam.
— O que você quer, Mathias? — minha voz saiu trêmula, pequena. — Já não bastou tudo que você fez?
Ele riu. Um som baixo e horrível.
— O que eu quero? — inclinou-se para frente, os olhos brilhando com uma luz louca sob as luzes vermelhas.
Um calafrio percorreu minha espinha.
— Eu… eu te devolvo o dinheiro… — menti, sabendo que era inútil.
— Você? Devolver? — ele gargalhou, cuspindo as palavras. — Você não tem um centavo do que valeu! Eu não vendi um empréstimo, Selene. Eu vendi você. Sua virgindade. Seu corpo. Foi um negócio. E você fugiu antes de entregar a mercadoria. Achou que era assim tão fácil escapar do seu destino?
O pânico agora era um animal vivo dentro do meu peito, rasgando por uma saída.
Eu me encolhi ainda mais contra a cabeceira da cama, tentando me tornar pequena, invisível.
— Não… — sussurrei. — Por favor…
— Por favor nada — ele cuspiu, o sorriso se tornando algo verdadeiramente maldoso.
Estendeu a mão, não para bater, mas para agarrar meu queixo, segurando-o com força. Os dedos gelados pressionando minha pele.
— Agora você não vai escapar do seu destino. Vou garantir que valha cada centavo que o chefe desembolsou por você. E depois… bem, depois talvez eles te deixem ficar. Como uma das meninas especiais. Mas eu te garanto: depois daqui, ninguém nunca mais vai te ver. E você… nem vai querer voltar.
A menção de chefe e eles fez meu sangue gelar.
Um instinto primitivo de sobrevivência explodiu dentro de mim.
Não era coragem.
Era desespero.
E vontade de escapar.
Com um gemido abafado, eu me joguei para frente, não para fugir, mas para atacá-lo. Meus dedos arranharam o rosto dele, buscando os olhos.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!