Cap.94
O silêncio dentro do carro era diferente agora. Não era pesado, mas carregado de uma verdade que pairava entre nós e não poderia ser desfeita. Meu “eu te amo” ainda ecoava no ar, e a resposta dele, um beijo doce e uma promessa vaga, era um mel e um veneno que eu decidi engolir de uma só vez.
Adon dirigia com uma calma que eu nunca tinha visto. Sua mão, que antes segurava a minha, agora descansava sobre meu joelho, um toque leve, quase contemplativo. Ele me levou até a porta de casa, mas não saiu do carro.
Seus olhos, na penumbra, estudaram meu rosto.
— Até amanhã, freirinha — ele disse, a voz um pouco rouca.
Eu só consegui acenar, o vestido de seda vermelha fazendo um som suave ao me mover.
O salto era desconfortável, mas eu me sentia flutuando, ainda intoxicada pela noite, pela sensação de que, por algumas horas, eu tinha sido a única mulher no mundo dele.
A realidade começou a se infiltrar assim que a porta do carro se fechou e os faróis desapareceram na esquina.
O vestido, que me fazia sentir uma princesa, de repente parecia um disfarce ridículo na frente do lugar simples onde eu morava.
Entrei devagar, o coração ainda leve, mas uma pontada de ansiedade começava a brotar no peito. A chave mal girou na fechadura quando a porta se abriu bruscamente por dentro.
Guilhermina estava lá. Parada no meio da pequena sala, com um robe de seda caro sobre o pijama, os braços cruzados.
Seu olhar, como se me acusasse de algo, percorreu meu corpo da cabeça aos pés, apreciando cada detalhe do meu visual — o vestido, o penteado, a maquiagem discreta que as vendedoras insistiram em fazer.
Um sorriso lento, venenoso, se desenhou nos lábios dela.
— Nossa, olha só — ela disse, a voz um doce azedo. — A gata borralheira voltou do baile. E ainda vestindo a fantasia. Achei que o sapatinho de cristal já tivesse virado abóbora.
O sangue esquentou no meu rosto. A frustração foi instantânea e profunda, apagando em um segundo todo o brilho da noite.
— Mima… o que você está fazendo? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas ela saiu fraca.
— Estou esperando minha melhor amiga, não posso? — ela retrucou, dando um passo à frente. Seus olhos brilhavam com um prazer perverso. — Afinal, temos tanto a conversar. Sobre onde você esteve. Com quem.
Ela circulou ao meu redor como um predador avaliando a presa.
Seu dedo tocou a alça do meu vestido, um gesto de posse e desdém.
— Por quê, Mima? — A pergunta saiu como um sussurro dolorido. — Por que você está fazendo isso? Por que está se enfiando assim entre mim e o Adon? Você sabia… você sabia que eu gostava dele. Além disso, ele nem faz seu tipo, é só um cara qualquer.
Ela parou na minha frente, tão perto que eu sentia o cheiro do perfume caro dela.
— Ah, Selene. Ingênua, ridícula Selene — ela cuspiu as palavras. — Você acha que isso é sobre gostar? Você não tem a mínima ideia de com quem está lidando. O Adon não é um garoto do seu orfanato. Ele é um peixe muito, muito maior. E você é a isca mais patética que ele poderia ter encontrado para fisgá-lo, mas... você não é melhor que eu, é melhor que se afaste.
Cada palavra era um golpe. Eu senti as lágrimas pressionando meus olhos, mas me recusei a chorar na frente dela. Mima já estava passando dos limites. Não sei por que sente tanta antipatia por mim.
— Ele não gosta de você — ela continuou, a voz baixa e cortante. — Ele está andando com você até ter o que quer. Você acha que ele é diferente? Todos os homens são iguais. E você… você é a única mulher adulta que ainda acredita em contos de fadas com a virgindade intacta.
— O que está tentando dizer?


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!