Cap.192
Katleia olhou para Selene com uma mistura difícil de nomear: gratidão profunda, quase reverente, e um receio silencioso que escureceu por um instante o brilho de seus olhos. Apertou a mão dela com força, como se aquele contato fosse uma âncora.
— Obrigada, Sisi. Só… tenha cuidado. Se ele é capaz de fazer o que fez, então é poderoso. E pessoas poderosas… não gostam de ser investigadas.
Selene sorriu, mas havia algo novo ali — não ingenuidade, e sim firmeza. Uma centelha de ferocidade amadurecida à força.
— Que tentem — respondeu, em tom suave, porém inabalável. — Eu não sou mais a menina assustada do orfanato. E você não está sozinha. Além disso, temos William, o braço direito de Adon — que é advogado — e os Bertans.
Katleia respirou fundo.
— O que você acha melhor?
Selene hesitou, sincera.
— Não sei… Adon já fez tanto por mim. Mas acredito que a intervenção dos Bertans seja o melhor caminho. Eles têm ligação direta com a segurança pública. Na prática, comandam a segurança mundial. Se alguém pode encontrar esse homem — e dar uma lição nele — são eles.
Katleia assentiu lentamente.
— Bom… não vamos pensar nisso agora — disse Selene, apertando-lhe as mãos com carinho. — Você vai se casar hoje. Está tudo pronto. Daqui a pouco os maquiadores chegam, e você precisa subir.
Elas se reuniram no salão do andar de cima, entre risos e conversas descontraídas elas estavam finalmente vivendo sem preocupações, Selene seria a noiva mais deslumbrante e do seu lado as madrinhas de casamento que não poderiam ser ninguém além de suas amigas.
A cerimônia foi discreta, mas absolutamente deslumbrante.
Não aconteceu no grande palácio, e sim nos jardins da Casa da Ponte, sob uma pérgula antiga coberta de flores brancas e folhagens delicadas. Velas de vidro alinhavam o caminho, refletindo luz dourada no mármore claro. O ar da noite carregava o perfume suave de jasmim e rosas recém-abertas.
Os Bertans estavam presentes em sua imponência silenciosa, atentos, quase solenes, observando a neta que haviam recuperado finalmente unir sua vida à de um Felix. Havia orgulho e um pouco de insatisfação mas redenção..
Alex Ainda fraco, o corpo marcado pela recuperação lenta, mas os olhos… os olhos estavam mais vivos e orgulhosos do que nunca. Ele acompanhou cada passo de Selene com uma emoção que não tentou esconder.
Axel e Átila, de smoking impecável, serviam como padrinhos de Adon. Trocaram olhares cúmplices e comentários sussurrados, tentando, e falhando miseravelmente, manter a seriedade exigida pelo momento.
Quando Selene surgiu, o mundo pareceu prender a respiração.
O vestido não era excessivo. Era elegante, fluido, feito para ela. O véu leve dançava com a brisa noturna, e seus olhos buscavam apenas um rosto.
Adon.
Ele a esperava com uma expressão que não deixava dúvidas: não havia mais contratos, estratégias ou obrigações. Apenas escolha.
Quando o celebrante declarou Adon e Selene marido e mulher, desta vez por amor, por verdade, por decisão mútua, o beijo que selou o voto foi doce e profundo, carregado de tudo o que haviam perdido, enfrentado e, finalmente, vencido.
Um suspiro coletivo percorreu os convidados, seguido por aplausos contidos, emocionados.
A festa se espalhou pelos jardins iluminados por cordões de luz e centenas de velas. Taças tilintavam, risadas se misturavam à música suave que preenchia o ar noturno. Era uma felicidade real, conquistada a duras penas.
Em um canto mais quieto da varanda, afastada da multidão, Katleia apoiava-se na balaustrada de pedra, observando a escuridão além dos jardins. O vestido simples que usava parecia absorver a penumbra, como se fosse feito para não chamar atenção.
Ela sorria quando alguém passava, mas por dentro, a felicidade de Selene, tão merecida , despertava ecos de seu próprio vazio, de fantasmas que ainda não tinham nome.
— Fugindo da festa?
A voz grave e familiar fez com que ela se virasse devagar.

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