Cap172
Enquanto Selene pensava no que fazer agora, presa novamente naquele quarto do outro lado da cidade, outras engrenagens do mesmo mecanismo perigoso se moviam.
Katleia e Gildete, com os nervos à flor da pele, desistiram de esperar passivamente. Elas sabiam que a polícia parecia estar envolvida em algum esquema junto com os traficantes.
A ideia de envolver o tio Silva novamente foi descartada. Ele já demonstrara, na crise anterior, que seu alcance e coragem eram limitados diante de sombras como as dos Felix.
Mas havia outro nome. Uma lembrança mais sólida da infância no orfanato: o tio Arthur. Ex-militar, agora segurança particular de baixo perfil, era uma das poucas figuras masculinas que, no passado, oferecera proteção genuína, sem segundas intenções.
Na delegacia, o clima era de desinteresse burocrático até que Arthur apareceu, atraído pelo chamado das meninas.
Seu rosto, marcado pelo tempo e por cicatrizes sutis, ficou sério ao ouvir o relato truncado de Katleia e Gildete.
O desaparecimento de Selene. As suspeitas sobre o orfanato das freiras. Os homens de preto. Os rumores de meninas que sumiam.
— Isso é mais grave do que parece, meninas — Arthur murmurou, após registrar oficialmente o desaparecimento de Selene. Seus olhos, acostumados a avaliar perigo, estudaram o rosto assustado delas. — A Madre… ela mudou muito nos últimos anos. O dinheiro fala alto. Vou dar uma olhada no orfanato. Só uma ronda, para ver se descubro alguma coisa.
— Tio Arthur, não vá sozinho! — Katleia implorou, seu instinto gritando. — Eles são perigosos!
— Relaxa, Kat. Sou velho de guerra, não menino. Vou só observar. Não vou me meter em nada. Prometo.
Ele saiu com um passo firme, mas a preocupação não deixava seus olhos.
Do outro lado da rua, sentado em um carro discreto, um homem observava a cena.
Viu as meninas e Arthur. Viu a direção que ele tomou.
Era um informante menor de Omar, que rondava o bairro passando qualquer tipo de informação para o braço direito do traficante. Um parasita do ecossistema criminoso que vendia dados em troca de sobrevivência.
Ele tirou um telefone descartável.
Enquanto isso, as meninas observavam Arthur se afastar, até que o policial Silva parou ao lado delas.
— O que vocês estão fazendo? — perguntou.
Elas deram de ombros, ignorando-o.
— Não é que eu não me importe com vocês e com aquele lugar… — ele continuou, desconfortável —, mas tudo agora está complicado. Pessoas com poder estão tomando a cidade e transformando ela nisso que vocês estão vendo. Aquele orfanato é só a cereja do bolo.
— E você é as sobras do bolo que vão pro lixo — Katleia retrucou. — Já entendemos. Você não quer ajudar. Já aceitamos isso.
— Meninas… eu preciso sobreviver. Tenho filhos para criar. E o oficial Arthur também. Ele não deveria estar se metendo com isso.
— Pelo menos alguém está tentando fazer alguma coisa. E você?
Silva suspirou, vencido.
— Tudo bem… vocês vão entender quando as coisas saírem do controle. Espero que não se arrependam depois.
Enquanto isso, um dos homens do Grupo Corvo mantinha sua atenção dobrada em qualquer movimento no bairro, sem perder de vista as meninas.
— É… as meninas do apartamento foram à polícia. Trouxeram um tio aposentado, cara durão. Ele está indo em direção ao orfanato das freiras agora… Parece que a coisa vai esquentar por lá. A polícia oficial pode acabar colocando o nariz onde não deve.
— Se for só ele, não nos diz respeito — respondeu a voz do outro lado. — Ainda não é hora de meter o nariz nas coisas de Omar. Precisamos de lugares onde ele possa ser encontrado.
— Ainda não conseguiu localizar a mulher do chefe? Nem uma pista?
— Virou fumaça. Omar cuidou bem para que não houvesse qualquer monitoramento por onde ele passou. Acredito que ela esteja em algum lugar no subsolo, mas… também colocamos helicópteros sobrevoando a cidade. Mesmo que seja inútil, todas as alternativas são válidas.
— Bom… vou continuar cuidando para que as meninas não deem mais trabalho aos Felix.
A ligação foi encerrada.
Enquanto isso, em uma sala escura cheia de monitores — uma base de monitoramento particular e ilegal mantida pela segurança do Grupo Felix —, Adon, Átila, Axel, William e, para surpresa de todos, Alex Felix e seu conselheiro Willy, estavam reunidos.
Nas telas, imagens granuladas de câmeras de segurança de prédios distantes.
Willy, com sua eficiência silenciosa, conseguira acesso a uma filmagem crucial: o telhado do prédio de onde Selene desaparecera.
A imagem vinha de um ângulo distante, mas era nítida o suficiente para fazer o coração de Adon parar.
Ela estava lá.
No parapeito.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!