— Consegui adiar. O juiz é… um amigo meu, e dados os rumores de sequestro e o estado emocional. Mas não podemos adiar para sempre, Átila. A polícia oficial, a imprensa… isso é uma bomba-relógio. É melhor você resolver esse pepino antes que o Grupo Felix seja afetado.
Átila assentiu, a mente dividida entre a irmã perdida.
No corredor frio e funcional da base de monitoramento, longe dos ouvidos de Adon e Axel, a tensão entre Átila e William era palpável. William ainda parecia ter coisas a expor, coisas que Átila não queria ouvir.
Ele segurava um tablet, a expressão profissional rachada por uma rara frustração.
— O adiamento foi o máximo que consegui. O juiz não vai aceitar outra desculpa. E a queixa… ela não está aceitando acordo. Nenhuma compensação financeira. A exigência dela é ver você pagando.
Átila, que observava a rua escura refletida na janela, virou-se lentamente. Seus olhos, normalmente analíticos, estavam carregados de uma escuridão visceral.
A preocupação com Selene — Simone —, a culpa, a raiva contra Omar e agora esse obstáculo legal, ao mesmo tempo insignificante e catastrófico, fundiam-se em um único impulso: esmagar.
— Não se preocupe — disse ele, num sussurro baixo e perigosamente calmo. — Eu vou encontrar essa mulher. E vou enfiar essa compensação goela abaixo dela, mesmo que tenha que desencaixar a mandíbula para isso. O que essa vadia pensa que está fazendo? Acha que pode brincar com a família Felix?
William avançou um passo, bloqueando fisicamente a linha de visão de Átila para a porta, como se pudesse conter sua intenção.
— Você está alterado. E não, você não vai fazer isso. Já estamos em uma linha tênue. Eu estou em uma linha tênue. Por oferecer dinheiro a ela, mesmo que indiretamente, meu registro na Ordem está em risco. Anos de carreira impecável. Nunca saí da linha.
— Mas essa mulher… a mulher com quem você… interagiu… não é uma pessoa comum. E pode estar sendo assessorada por um escritório rival famoso por ir atrás de peixes grandes. Ela não é fácil de convencer. Nem de intimidar.
Um sorriso lento e sombrio curvou os lábios de Átila. Era a expressão de alguém que passara anos estudando a mecânica do medo em mentes perturbadas.
— Essa velha não vai ser difícil… até eu encontrá-la.
Ele se inclinou levemente à frente, impondo sua presença no espaço estreito.
— Então ela vai ter uma escolha muito clara: prefere ficar sem as mãos, sem nunca mais segurar uma caneta para assinar uma queixa ou escrever um livro… ou prefere esquecer que esse processo sequer existiu?
— Arruma um tempo na sua agenda, William. Porque, por minha causa, Adon e Axel também estão sendo processados. Ou seja: nós três estamos fodidos. E você, por extensão.
Ele fez uma pausa. O ar ficou pesado.
— Alex sabe disso?
Átila sacudiu a cabeça rapidamente.
— Alex não pode nem ver a sombra disso. Se ele descobrir o processo criminal, a tentativa de suborno e agora essa ameaça de violência… ele pode nos deserdar. Ou pior.
— Pode tentar “resolver” do jeito dele. E isso significaria enterrar todos nós junto com o problema. Ainda mais agora que descobriu que a filha que mais estima está viva.
— Bom — William respondeu, encerrando o assunto. — Então mantenha-o no escuro. Mas, se isso explodir, vai ser catastrófico.
— Você conseguiu descobrir o nome dela?
— Não… — William suspirou, massageando a têmpora. — Ela está autorizada a processar usando o nome de autora para preservar a identidade, devido à gravidade das ameaças.
Ele cerrou a mandíbula, lançando um olhar de julgamento a Átila, que não percebeu os punhos de William fechados.
— Eu vou dar um jeito de descobrir. Talvez comparecendo à delegacia… eu tenha alguma chance. Quem sabe.
— Você não tem limites mesmo, não é? — William retrucou. — Não entende que não se mexe com civis? Além disso, é só uma autora. Uma escritora tentando sobreviver. Pelo que pesquisei, essa é a única fonte de renda dela.
— E você, um Felix, atacando uma subescritora… pensa bem. Por que você está realmente perseguindo essa criança?
— Criança?
— Eu já disse. Ela tem dezenove anos. Não é uma velha, é uma menina. E você anda por aí assustando ela. Sabe como os pais dela devem estar? Como ela deve estar?
— Como uma menina escreve aquele tipo de coisa? Isso não entra na minha cabeça. Ela deve ter mentido a idade. Como garantir? Nem o nome verdadeiro tem coragem de usar.
— Independente disso, você tem que parar.
— Já parei. Não sou louco a esse ponto. Mas é tão difícil aceitar o acordo? Além disso… eu mesmo mandei um email oferecendo dez milhões. Quem rejeita esse dinheiro?
William o encarou, atônito.
— Você fez o quê?
— Ofereci dinheiro a ela.
— Me deixa ver esse email.
Átila pegou o celular, contrariado, e entregou a William, que abriu a mensagem e começou a ler.
Assunto: Última oportunidade de bom senso
Kat X,
Vou ser direto, porque sei que esse é o único idioma que pessoas como você entendem.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!