Cap. 165
(POV Selene)
Os portões de ferro do cemitério particular dos Felix se abriram como as mandíbulas de uma besta negra. O carro de Adon deslizou por alamedas sinuosas, ladeadas por túmulos tão elaborados que pareciam miniaturas de castelos. O silêncio era opressivo, pesado como um véu de veludo. Meu coração batia num ritmo irregular, um tambor de mau presságio contra minhas costelas. Para onde ele estava me levando? Para algum santuário secreto? Para a prova final de seu passado sombrio?
Ele parou o carro e saiu, vindo abrir minha porta. Sua mão estava firme, mas seu toque me queimou. Segui-o, meus passos ecoando no mármore polido. O vento noturno uivava baixo entre os monumentos, carregando o cheiro de terra úmida e flores murchas.
E então ele parou.
Diante de uma lápide de granito negro, simples, mas imponente.
Minha visão se estreitou, focando nas letras prateadas. O mundo ao redor desfocou; o som do vento sumiu, substituído por um zumbido agudo nos meus ouvidos.
SIMONE.
O nome dançou à minha frente — uma ilusão, uma piada de mau gosto.
Adon se virou para mim. Seu rosto estava pálido, iluminado pela luz fraca de um poste próximo. Havia uma dor tão profunda em seus olhos que era quase física.
— Você deve estar surpresa, não é? — a voz dele saiu rouca, quebrada pela emoção. — Mas… a pessoa que está neste túmulo… significou tudo para mim. Alguém que… eu dei minha vida para salvar. E perdi.
Eu não conseguia respirar. Meus pulmões pareciam colapsados. Eu estava encarando meu próprio epitáfio… e o que Adon tinha a ver com isso?
— Adon… — minha voz foi um sibilo, um sopro roubado pelo vento. — Quem… quem é ela para você?
Ele engoliu em seco, os olhos se perdendo na inscrição.
— Minha irmã.
Irmã.
A palavra ecoou no vácuo da minha mente. Irmã. Irmã. Irmã.
— Minha irmã mais nova, a herdeira caçula do grupo Felix — ele continuou, cada palavra saindo como se fosse arrancada dele. — A mesma que teve sua família massacrada diante dos próprios olhos. A que eu protegi a todo custo, escondi nos meus braços enquanto os tiros ecoavam… para que não fosse morta junto. A mesma que eu… que eu tive que entregar em um orfanato, chorando, para que não fosse caçada e morta. Porque Simone… — sua voz falhou; ele fechou os olhos — …Simone é filha do Grupo Felix. Mas carregava outro sobrenome… um nome poderoso que a fazia dona de uma herança inestimável. Um alvo. Eu a deixei lá para salvá-la. E falhei.
Você a entregou? Num orfanato?
A pergunta na minha cabeça era um grito.
As imagens que haviam me assombrado desde o confronto com Mima voltaram com força total.
O carro. O garoto de olhos cinza. O homem chorando. “É o único lugar seguro.”
O garoto… era Adon.
O homem… Alex.
A menina assustada… era eu.
— Sim — a confissão dele foi um golpe. — E depois descobrimos que o orfanato era um alvo. Um covil de traficantes. Quando fomos resgatá-la… eles nos interceptaram e, com medo de serem descobertos, para apagar as provas, trancaram as meninas e atearam fogo. — A voz de Adon quebrou completamente. — Eu me queimei inteiro tentando salvá-la. Eu ouvi os gritos, Selene. Ouvi os gritos dela. O cheiro de carne queimando, de sangue… foi a última coisa que eu tive dela. Naquele momento, eu não só perdi minha irmã. Eu a perdi da forma mais sombria, mais perversa possível. E eu não consegui salvá-la.
Ele estava me contando a minha própria morte.
Cada palavra era uma agulha de gelo cravada no meu crânio.
O cheiro de fumaça e sangue, que eu julgava serem apenas pesadelos abstratos, tornava-se real, específico.
Uma dor excruciante explodiu nas minhas têmporas. Um turbilhão de fogo, escuridão, pânico e mãos me puxando me invadiu.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!