Cap.164
Ela não esperou. Não disse uma palavra.
Virou-se e fugiu, os saltos altos ecoando no corredor silencioso, o vestido de veludo negro — outrora símbolo de poder e sensualidade — agora parecendo um manto de luto para um amor que acabara de ser ferido, esfacelado pelos cacos de uma memória e pela frieza da comparação com um fantasma.
Ela nem queria o colar. Mas, naquele momento, percebeu que nunca teria o lugar que ele reservava no coração.
Um lugar que pertencia, para sempre, a alguém que já partira.
A cobertura do prédio era um deserto de concreto sob um céu noturno engolido pela poluição luminosa da cidade.
O vento cortante enviava arrepios pela pele exposta de Selene, mas o frio dentro dela era muito pior.
Ela estava encostada na balaustrada, os ombros arqueados, quando os passos firmes de Adon ecoaram atrás dela. Ela não se virou.
Ele parou a poucos metros, uma distância que parecia um abismo.
— Selene — a voz dele veio carregada, um misto de urgência e exaustão.
Ela finalmente se virou. Seu rosto, iluminado pela luz fria dos refletores, estava encharcado; os olhos vermelhos, a maquiagem manchada. Mas não era um rosto derrotado. Era gelado. Um gelo nascido de uma ferida profunda e indigna.
— Não sabia que você podia me desprezar tanto — começou, a voz trêmula, mas clara, cortando o vento. — Depois de tudo o que demonstrou… depois de me dizer que me amava até doer… ouvi você dizer que eu não valia nem o toque em um objeto de alguém morto.
Adon fechou os olhos por um segundo, como se as palavras fossem golpes físicos.
— Eu não… não disse por mal. Não era sobre você. Aquilo foi dito no calor da raiva, porque Alex estava usando isso, usando ela, para me afetar. Para me cutucar no lugar mais sensível que existe. E, por causa disso, eu acabei usando palavras erradas.
Selene soltou um riso curto, amargo, que não chegou aos olhos.
— Parece que o jogo virou, não é? O que vocês querem? De repente, Alex, o grande carrasco, me defende, e você, que jurou me proteger, me apedreja com suas palavras sem eu nem sequer ter insistido naquele colar. O que eu sou diante dos seus olhos, Adon? Você me ama mesmo? Ou seu amor é tão condicional que se curva diante de uma… de uma bijuteria que eu nem queria?
Ela engasgou, a raiva dando lugar a um tremor de mágoa pura.
— Não é isso. Aquilo… o significado daquela joia… não é algo que se possa entender com tanta facilidade.
— Eu pedi, sim. Mas foi porque… aquele colar me pareceu familiar. Desde que o vi, algo dentro de mim se agitou. Minha memória é uma terra arrasada, Adon, você sabe disso. E aquela peça… ela me lembrou de algo. Algo quente, bom, e que foi tirado de mim. Eu só queria segurá-lo, forçar essa memória até entender! Mas eu nunca, em nenhum segundo, pensei que você me desprezasse tanto a ponto de achar que eu seria indigna até de tocar! Como se eu fosse uma contaminação.
As lágrimas voltaram a correr, agora de frustração e uma solidão imensa.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!