Cap.113
O eco do tapa reverberou pelo salão como um estalo de raio em meio à sinfonia de murmúrios. Mima recuou um passo, a mão grudada na face que começava a avermelhar, com a marca nítida dos dedos de Selene.
Seus olhos, antes cheios de veneno, agora estavam arregalados de puro choque.
Rose ficou paralisada ao seu lado, a máscara de deboche congelada em uma careta de incredulidade.
O silêncio foi absoluto por dois segundos que pareceram uma eternidade.
— Chega, Mima — disse Selene, sua voz surpreendentemente estável, carregando uma frieza que ela nunca soube que possuía. — Não vou mais ficar aqui parada enquanto você me humilha. Acabou. Ainda mais agora que descobri que você é uma ladra.
Antes que Mima pudesse reagir ou Rose soltar um grito de indignação, um homem atravessou o círculo de espectadores que se formara. William Forges chegou ao lado de Selene, seu rosto inexpressivo, mas os olhos avaliando a situação com rapidez militar.
— Selene, não é? — perguntou ele, com um toque de surpresa respeitosa na voz. — Corajosa.
— Sim. E o senhor é? — ela respondeu, ainda ofegante, sentindo a adrenalina percorrer suas veias.
— William Forges. Amigo e… segurança do Adon. — Ele não disse “melhor amigo”, mas a associação foi clara. — É melhor sairmos da linha de fogo antes que o patriarca dê as caras. Não podemos com isso.
Ele segurou o braço dela com firmeza, mas não com brutalidade, e começou a conduzi-la para longe do epicentro do escândalo. Murmúrios explodiram ao redor.
— Quem é ela para o Forges?
— Ele nunca se envolve em confusões sociais…
— O que essa garota tem?
Mas o caminho foi bloqueado. Três homens de terno escuro e expressões impenetráveis surgiram, formando uma muralha humana entre eles e a saída. E, caminhando atrás deles com uma calma que gelava o sangue, vinha Alex Felix.
O patriarca parecia uma figura saída de um tribunal antigo. Seu olhar não estava em Mima, que começava a soluçar dramaticamente, nem em Rose, que apontava para Selene com o dedo trêmulo de falsa indignação.
Seus olhos cinza-brilhantes estavam fixos em Selene e depois em William, com desaprovação glacial.
— William — disse Alex, a palavra soando como um aviso.
— Alex, a senhorita estava apenas… — Forges tentou, mas Alex ergueu ligeiramente a mão, silenciando-o.
— Estava causando um distúrbio em meu evento. Agredindo convidadas de honra.
Seu olhar voltou-se para Selene, e era como ser espetada por duas adagas de gelo.
— Você. Uma funcionária qualquer.
Mima encontrou sua voz, chorosa e teatral.
— Ela me bateu, senhor Felix! Sem motivo! Eu só estava conversando e ela… ela surtou!
Rose anuiu vigorosamente, acrescentando:
— Foi um ataque de inveja, claramente. Ela não pertence a este lugar.
Alex não deu a menor indicação de que acreditava ou desacreditava nelas. Sua atenção era toda de Selene, uma atenção esmagadora.
— É verdade? Você levantou a mão para a senhorita Guilhermina?
Selene sentiu a língua grudar no céu da boca. A autoridade que emanava daquele homem era física, um peso sobre seus ombros.
— Ela me provocou… me humilhou publicamente… — sua voz saiu calma, mantendo a cabeça baixa.
— E isso justifica violência? Em minha casa? — A voz de Alex não se alterou, mas cada palavra era mais cortante que a anterior. — Parece que confundiu resiliência com selvageria. E confundiu seu lugar. Afinal, você nunca teria direito de entrar em um lugar como este.
Ele fez um gesto quase imperceptível com a cabeça para dois de seus homens.
— Coloquem-na de joelhos. Que ela mostre um pouco da humildade que claramente lhe falta.
— Alex, não é necessário — William tentou novamente, mas Alex o encarou.
— William, você está aqui a serviço. Pense muito cuidadosamente em qual lealdade está prestes a testar.
A ameaça era clara e silenciosa.
O preço da intervenção seria alto demais. Forges, com os maxilares tensionados, baixou o olhar por uma fração de segundo antes de recuar um passo, sua lealdade ao protocolo e ao poder maior vencendo.
Ele não podia quebrar sua relação com o Don por uma estagiária.

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