Dito isso, ele discou imediatamente para o 192.
A ambulância do SAMU e as viaturas da polícia chegaram quase ao mesmo tempo.
Fernando foi colocado em uma maca.
A polícia examinou a cena rapidamente.
Foi preciso tentar várias vezes até conseguirem tirar das mãos de Franciele o caco de vidro que ela ainda segurava com força.
O policial olhou para o rosto pálido dela e ordenou:
— Levem-na para a delegacia para prestar depoimento.
Franciele entrou em pânico.
Se fosse levada para a delegacia daquele jeito, será que a acusariam de lesão corporal dolosa e a mandariam para a cadeia?
Nelson segurou suas mãos trêmulas e manchadas de sangue.
— Não pense demais. Eu não vou deixar nada de ruim acontecer com você.
Aquela frase, dita com voz calma e firme, tinha um poder tranquilizador imenso.
Por um instante, Franciele sentiu um alívio inexplicável.
Ela acompanhou os policiais até a delegacia.
Primeiro, uma policial providenciou para que um médico fizesse curativos em suas mãos, que tinham sido cortadas pelo vidro.
Em seguida, ela passou por um exame físico completo,
para determinar a gravidade da violência que havia sofrido.
Por fim, foi levada para a sala de interrogatório, a fim de reconstituir tudo o que havia acontecido na cena.
Era a primeira vez que Franciele se via sentada numa sala de interrogatório.
Havia uma luz forte bem acima de sua cabeça.
Tão intensa que ela mal conseguia manter os olhos abertos.
O investigador pediu que relatasse tudo o que havia acontecido.
Franciele tentou controlar as emoções ao máximo, explicando com paciência todo o contexto e todos os detalhes.
Incluindo o fato de não conseguir entrar em contato com a mãe,
de ter ido à casa noturna procurar a irmã, Eliana, que passara o aniversário com Mafalda na noite anterior, para saber onde ela estava,
e de como Eliana a obrigou a beber todas as bebidas da mesa, se recusou a dar respostas e a deixou lá sozinha com Fernando.
O policial perguntou:
— Então você está dizendo que esse caso envolve diretamente a sua irmã, Eliana?
Franciele assentiu.
— Sim.
No meio da noite, a polícia expediu uma intimação para Eliana.
Enquanto isso, Franciele foi levada para uma cela provisória individual.
Ainda mais por algo como aquilo.
— Sra. Duarte!
De repente, uma voz soou ao lado dela.
Franciele ergueu a cabeça.
E viu um homem de terno elegante parado à sua frente.
— Sra. Duarte, eu sou Gonçalo Andrade, advogado do Sr. Sampaio. Ele me mandou aqui para tirá-la daqui.
Franciele ficou atônita, sem conseguir acreditar.
— Você quer dizer que eu posso sair?
Gonçalo assentiu.
— O Sr. Sampaio interveio pessoalmente como seu fiador. Ele entrou em contato com alguns dos jovens herdeiros que estavam no camarote 1006 para testemunharem a seu favor. Além disso, as câmeras do camarote registraram a agressão de Fernando contra a senhora, o que, somado aos seus ferimentos, prova que a senhora agiu em legítima defesa.
Franciele assentiu e soltou um longo suspiro de alívio.
Acompanhou Gonçalo para concluir rapidamente os trâmites e ir embora.
Para sua surpresa, assim que chegou à porta da delegacia, esbarrou em Givaldo, que vinha chegando às pressas.
Quando viu o estado deplorável em que Franciele estava, seus olhos se estreitaram.
Mas, em vez de se preocupar, suas palavras vieram carregadas de ressentimento:
— Se você foi parar na delegacia, por que tinha que arrastar a Eliana junto?

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