— Tinha ido para casa.
Se não tivesse ouvido o boato de que ele caíra, não teria retornado àquela hora da noite para vê-lo.
Os olhos escuros de Nelson fixaram-se nela:
— Você estava chorando?
O coração de Franciele deu um solavanco.
Não contava com a sagacidade do olhar dele.
Bastou um segundo para ele perceber que ela havia chorado.
Contudo, como admitiria isso na frente dele?
— Não.
Franciele negou, sem jeito, mudando de assunto às pressas:
— Você ainda não tomou os remédios, certo? Anda logo, tome a sua medicação.
Ela pegou as cartelas na mesa de cabeceira, tirou alguns comprimidos e os despejou na palma da mão.
Então os estendeu na direção dele.
Nelson manteve os lábios finos selados. Sem dizer uma palavra, apenas a encarava.
Nem sequer desviou os olhos para ver os remédios que ela lhe oferecia.
Era óbvio, com um simples olhar, que ela sem dúvida havia chorado.
Um misto de pena e fúria injustificável emergiu em seu peito.
Como alguém ousava magoá-la daquela forma?
Mas, infelizmente, ele não tinha nenhum vínculo ou autoridade para sondá-la a respeito.
— Vai me dizer que não tem coragem nem para engolir umas pílulas? — Franciele o provocou, ao perceber que ele continuava inerte.
Nelson a fulminou com os olhos, parecendo ter algo a dizer que morreu na garganta.
Depois de hesitar, admitiu num resmungo sem graça:
— Eu odeio gosto amargo.
Franciele soltou uma gargalhada genuína, incapaz de segurar.
Então até ele tinha fraquezas.
— Quem diria que o todo-poderoso tem medo de gosto ruim? Quer que eu desça para comprar um pirulito? — Franciele caçoou, aos risos.
O rosto imponente de Nelson fechou-se de imediato:
— Não se atreva.
Franciele tornou a estender a mão na direção dele:
— Vamos lá, engole tudo. Tudo o que faz bem tem gosto ruim.
Nelson fixou o olhar nela por um momento.
Por fim, pegou o copo de água e os comprimidos, jogou a cabeça para trás e engoliu tudo de uma vez.
As feições outrora imponentes se contorceram em uma expressão de sofrimento quase cômica.
Franciele nunca tinha visto o chefe naquela situação de vulnerabilidade e começou a rir ainda mais.
Sentiu até vontade de pegar o celular e tirar uma foto para registrar o momento.
— Saia daqui. — Nelson rosnou, furioso.
— Eu ajudei o Edson, sim, mas isso não tem nada a ver com você. Apenas considerei que ele seria útil aos meus propósitos.
Uma faísca de surpresa cortou o olhar de Franciele:
— Mas...
Como ele podia afirmar que não tinha nada a ver com ela?
De que forma Edson seria útil aos propósitos dele?
Nelson lhe lançou mais um olhar:
— Agora, se você quer massagear o próprio ego e achar que fiz isso por você, não há muito que eu possa fazer.
Franciele:
— ...
Ela nunca teve a pretensão de massagear o ego com algo do tipo.
Edson devia um empréstimo exorbitante de cento e cinquenta milhões à Congregação do Sol Esquecido.
Se essa conta fosse parar nas costas dela, estaria devendo a Nelson um favor de cento e cinquenta milhões.
Uma dívida daquele calibre ela jamais teria condições de pagar.
Sendo assim, era infinitamente melhor que não tivesse sido por ela.
Franciele soltou um suspiro de alívio e disse polidamente:
— Sr. Sampaio, descanse bastante. Eu já vou indo...
— Fique onde está. — Nelson bradou, parando-a no ato.

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